Feitiço em Pedra Viva
Há dias em que a alma se sente
como um campo devastado após a tempestade — a tristeza sopra como um vento frio
que atravessa tudo, sem pedir licença. É uma dor que não grita, mas consome em
silêncio, como fogo que arde por dentro sem mostrar chama.
Sinto-me como uma flor murcha à
sombra, sem sol, sem água, sem mãos que a toquem com ternura. O corpo pesa como
pedra antiga, esquecida num jardim onde ninguém mais passa. O sorriso que
ofereço é um espelho rachado — reflete, mas não revela. É um gesto vazio, um
perfume de mentira.
Vivo num teatro de ilusões, onde
a máscara já se colou ao rosto. Sou invisível, como se a minha existência fosse
feita de névoa. Há muito que o calor humano não me visita — nem um afago, nem
um olhar que me veja de verdade.
Estou exausta. Tão cansada. Nesta
vida, somos viajantes perdidos, não mestres do caminho. E às vezes,
pergunto-me: seria o fim uma libertação? Mas até no desconhecido, talvez
habitem sombras que nos perseguem, demónios que se alimentam do que resta da nossa
esperança.
A vida é uma vela acesa ao vento
— a cera derrete como lágrimas, e eu protejo a chama com as mãos trêmulas,
temendo que um sopro cruel a apague antes do tempo. Quando abro a alma, ela é
tratada como exagero, como drama. Dizem que é só uma fase, mas não veem o
abismo que me habita.
Talvez um beijo — não de pena,
mas de verdade — pudesse quebrar este feitiço. Um gesto puro, que me devolvesse
à carne, ao sangue, ao calor de ser humana. Só por um instante. Para guardar
uma memória que me sustente por mil anos.
Quero um ombro onde repousar o
cansaço, um gesto simples que diga: “estou aqui”. Um ouvido que escute sem
julgar. Quero ousar quebrar esta maldição. Quero voltar a sentir. A ser.
Ser humana é também ter dias
nublados. Quero olhar-me com mais gentileza, aceitar que não preciso ser forte
sempre. Permitir-me sentir sem medo de parecer frágil. Talvez eu não seja feita
de encantos, mas de sentimentos profundos que me silenciam quando mais quero
falar.
Só desejo isso: ser humana. Por
um momento. E guardar essa lembrança como um relicário de luz, para me agarrar
à vida quando tudo parecer escuro demais.

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