terça-feira, 27 de maio de 2025

Feitiço em Pedra Viva


Feitiço em Pedra Viva

Há dias em que a alma se sente como um campo devastado após a tempestade — a tristeza sopra como um vento frio que atravessa tudo, sem pedir licença. É uma dor que não grita, mas consome em silêncio, como fogo que arde por dentro sem mostrar chama.

Sinto-me como uma flor murcha à sombra, sem sol, sem água, sem mãos que a toquem com ternura. O corpo pesa como pedra antiga, esquecida num jardim onde ninguém mais passa. O sorriso que ofereço é um espelho rachado — reflete, mas não revela. É um gesto vazio, um perfume de mentira.

Vivo num teatro de ilusões, onde a máscara já se colou ao rosto. Sou invisível, como se a minha existência fosse feita de névoa. Há muito que o calor humano não me visita — nem um afago, nem um olhar que me veja de verdade.

Estou exausta. Tão cansada. Nesta vida, somos viajantes perdidos, não mestres do caminho. E às vezes, pergunto-me: seria o fim uma libertação? Mas até no desconhecido, talvez habitem sombras que nos perseguem, demónios que se alimentam do que resta da nossa esperança.

A vida é uma vela acesa ao vento — a cera derrete como lágrimas, e eu protejo a chama com as mãos trêmulas, temendo que um sopro cruel a apague antes do tempo. Quando abro a alma, ela é tratada como exagero, como drama. Dizem que é só uma fase, mas não veem o abismo que me habita.

Talvez um beijo — não de pena, mas de verdade — pudesse quebrar este feitiço. Um gesto puro, que me devolvesse à carne, ao sangue, ao calor de ser humana. Só por um instante. Para guardar uma memória que me sustente por mil anos.

Quero um ombro onde repousar o cansaço, um gesto simples que diga: “estou aqui”. Um ouvido que escute sem julgar. Quero ousar quebrar esta maldição. Quero voltar a sentir. A ser.

Ser humana é também ter dias nublados. Quero olhar-me com mais gentileza, aceitar que não preciso ser forte sempre. Permitir-me sentir sem medo de parecer frágil. Talvez eu não seja feita de encantos, mas de sentimentos profundos que me silenciam quando mais quero falar.

Só desejo isso: ser humana. Por um momento. E guardar essa lembrança como um relicário de luz, para me agarrar à vida quando tudo parecer escuro demais.

                                                 



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