Ser é verbo
A verdade e a mentira dançam juntas como sombras ao entardecer — inseparáveis, indistintas, moldadas pela luz de quem observa. Em certos ângulos, a mentira veste-se de verdade; noutros, a verdade se disfarça de ilusão. O peso de cada uma só se revela quando ousamos distingui-las.
E se tudo o que vivemos foi verdade apenas enquanto acreditávamos? E se agora, ao olhar para trás, tudo se desfaz como névoa ao sol? A memória é um espelho trincado — reflete, mas distorce.
Plantar uma semente de curgete esperando colher uma abóbora é como esperar que a vida nos dê respostas com perguntas erradas. Não nascerá uma melancia — nem milagre, nem metáfora salvará a incoerência.
Emoções, ideias, sensações — são irmãs siamesas que governam o nosso ser. Não pedem licença, apenas tomam o trono. Alimentam-se dos nossos dias como lobos famintos e, ainda assim, nos fazem sentir vivos.
A intuição? Talvez seja o sussurro do destino, talvez só um eco do medo. Ela separa o coração da razão como um rio que corta a montanha — belo, mas traiçoeiro, pronto para desabar em avalanche.
A curiosidade é uma tocha: pode iluminar ou incendiar. Mas sem ela, não haveria epopeias, nem descobertas, nem transcendência.
Guardar histórias em baús por milênios é como conservar brasas sob cinzas — aquecem a alma, mas também queimam de saudade.
Viver sem caos seria como beber água sem sede — insosso, mecânico, quase cruel. A entropia é o tempero da existência.
Não neguemos o que somos. Ser é verbo que exige ação: viver, viver, viver. Mesmo que o mundo se divida em paralelos ou se cruze em transversais, somos a interseção. A essência não se renega — ela pulsa, insiste, resiste.

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