Chuva ácida
A chuva ácida do adeus escorre pelo meu rosto como se cada
gota fosse uma lágrima forjada em espadas de cristal.
Não estava pronta para a tua partida — o chão fugiu-me dos pés como folhas
levadas por um vendaval de outono.
Foste embora cedo demais, como uma estrela cadente que se apaga antes de
realizar o desejo.
Sem ti, a minha fonte de inspiração secou como um rio encantado esquecido pelo
tempo.
Carrego no peito um jardim de enigmas, onde flores
silvestres crescem entre espinhos de incerteza.
As montanhas onde escondo o meu coração — lá no âmago da terra — tremem com o
eco da tua ausência.
Lobo solitário, dominas-me a alma com os teus uivos que dançam no vento, mas
nunca te vejo.
És miragem na floresta dos meus pensamentos, sombra entre os pinheiros, perfume
de jasmim que desaparece ao toque.
Na
solidão dos meus abismos, talvez os meus gritos sejam apenas ecos dos teus silêncios.
Viajo por campos de névoa, entre lírios e faias, à procura de um sussurro teu —
como uma alucinação doce e febril.
Um toque teu seria como o orvalho da madrugada sobre a pele ardente: mágico,
arrepiante, libertador.
Quero perder-me no delírio da tua presença, onde a loucura
se veste de amor e tudo faz sentido.
Sem promessas, sem contratos, volta. Arranca-me deste buraco
de raízes secas e leva-me aos céus, onde as nuvens são feitas de algodão e
esperança.
Delicia-te da minha essência, que te espera entre brumas, trilhos cobertos de
musgo e cascatas que cantam o teu nome. Encontrar-me-ás pura, como flor que
nunca foi colhida, pronta para alimentar-se do teu toque por mil primaveras.
As lágrimas que queimam transformar-se-ão em brisa suave, as
espadas em pétalas de magnólia, as feridas em ilusões que dançam ao som da tua
chegada.
Regressa. Dá-me o equilíbrio para libertar a tinta que me
corre nas veias, para escrever com a alma o que só tu me fazes sentir. És mais
do que sentimento — és vulcão em erupção, lava incandescente que não grita ao
vento, mas grava na terra a tua marca.
Sou tua, inspiração, enquanto fores o feitiço que me
encanta.
A chuva não esquece a tempestade, mas é na bonança que floresce o milagre.
É nesse instante sagrado que quero viver, até ao último sopro.
Não fujas, inspiração.
É em ti que plantei o meu coração — como uma semente à espera da tua luz.

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