Caminhos Sem
Retorno e Oceanos Sem Fundo
Há momentos na
vida que não admitem retorno — tal como a terra que engole o corpo na morte,
fria e definitiva como o mar profundo que não devolve o que leva. É uma
comparação dura, quase assustadora, mas verdadeira como a própria natureza.
Os caminhos que
escolhemos são sementes lançadas ao solo: algumas florescem em abundância,
outras apodrecem antes de nascer. Há trilhos que, uma vez pisados, se fecham
atrás de nós como portas de ferro — entradas sem saída, caminhos sem réstia de
volta.
E quando a
paisagem à nossa frente é árida, tóxica, devastadora… não nos resta senão
continuar a marcha. Levantamos a cabeça mesmo quando pesa como um penedo
ancestral; caminhamos arrastando os pés até que sangrem como quem trilha areia
quente e conchas quebradas. O coração lateja cansado, mas resiste. A
consciência, essa, não adormece: observa, sofre, interroga-se — porquê
aquele caminho, porquê aquele desvio, porquê aquele naufrágio?
Depois chegam os estágios inevitáveis, como doenças que
corroem devagar:
fase 1 — desespero,
fase 2 — aceitação,
fase 3 — busca por solução.
Assim se resume
a vida de milhares de almas à deriva no mar imenso das circunstâncias, seja no
amor, no dinheiro ou em qualquer outro jugo emocional. Cada experiência
marca-nos como ferro incandescente no lombo da existência — para o bem ou para
o mal. E o mal, esse, arde mais e mais fundo.
É um pesadelo
lúcido: é como se nos lançássemos à linha do metro e, num piscar de olhos,
acordássemos afundados no fundo do mar, com os pés presos a uma bola de chumbo
que nos arrasta para o abismo. E mesmo assim, teimosos como náufragos que não
aceitam o destino, bracejamos. Procuramos a superfície. Lutamos pelo sopro de
ar que prova que ainda estamos vivos. Porque acreditar num milagre, por mais
improvável, é a última âncora antes do afogamento.
O pesadelo
parece tão real que arrepia a pele e aperta o peito até faltar o ar. Escrever é
terapêutico — sim — mas por vezes pergunto-me se esta catarse é verdade ou se a
minha mente me engana, criando lanternas ilusórias para afastar as sombras que
me rondam.
No fundo, só sei
que nada sei, e flutuo num vazio infinito, como submarina perdida num oceano
escuro, à procura de um farol que revele o mistério que habita dentro de mim.
Dizem os mais
velhos que chorar liberta a alma. Mas quando as lágrimas se tornam
dilúvios, inundam tudo: o corpo desgasta-se, surge a frustração, a melancolia,
a raiva, o ódio — uma avalanche de emoções negras que empurra para um sono tão
profundo que quase roça a morte.
Mesmo envoltos
em escuridão, procuramos sombra — porque só existe sombra quando há luz. E a
vida às vezes parece uma floresta bravia, cheia de animais ferozes e plantas
envenenadas, onde as lianas prendem e os trilhos se torcem. Ainda assim,
avançamos. Um passo de cada vez. Porque há sempre um lugar seguro algures — nem
que seja depois de atravessar o caos.
No fim, é a fé e
a esperança que mantêm o corpo de pé e a alma à tona. É isso que nos sustém. É
isso que nos mantém vivos.