sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

Caminhos Sem Retorno e Oceanos Sem Fundo

 




Caminhos Sem Retorno e Oceanos Sem Fundo

Há momentos na vida que não admitem retorno — tal como a terra que engole o corpo na morte, fria e definitiva como o mar profundo que não devolve o que leva. É uma comparação dura, quase assustadora, mas verdadeira como a própria natureza.

Os caminhos que escolhemos são sementes lançadas ao solo: algumas florescem em abundância, outras apodrecem antes de nascer. Há trilhos que, uma vez pisados, se fecham atrás de nós como portas de ferro — entradas sem saída, caminhos sem réstia de volta.

E quando a paisagem à nossa frente é árida, tóxica, devastadora… não nos resta senão continuar a marcha. Levantamos a cabeça mesmo quando pesa como um penedo ancestral; caminhamos arrastando os pés até que sangrem como quem trilha areia quente e conchas quebradas. O coração lateja cansado, mas resiste. A consciência, essa, não adormece: observa, sofre, interroga-se — porquê aquele caminho, porquê aquele desvio, porquê aquele naufrágio?

Depois chegam os estágios inevitáveis, como doenças que corroem devagar:
fase 1 — desespero,
fase 2 — aceitação,
fase 3 — busca por solução.

Assim se resume a vida de milhares de almas à deriva no mar imenso das circunstâncias, seja no amor, no dinheiro ou em qualquer outro jugo emocional. Cada experiência marca-nos como ferro incandescente no lombo da existência — para o bem ou para o mal. E o mal, esse, arde mais e mais fundo.

É um pesadelo lúcido: é como se nos lançássemos à linha do metro e, num piscar de olhos, acordássemos afundados no fundo do mar, com os pés presos a uma bola de chumbo que nos arrasta para o abismo. E mesmo assim, teimosos como náufragos que não aceitam o destino, bracejamos. Procuramos a superfície. Lutamos pelo sopro de ar que prova que ainda estamos vivos. Porque acreditar num milagre, por mais improvável, é a última âncora antes do afogamento.

O pesadelo parece tão real que arrepia a pele e aperta o peito até faltar o ar. Escrever é terapêutico — sim — mas por vezes pergunto-me se esta catarse é verdade ou se a minha mente me engana, criando lanternas ilusórias para afastar as sombras que me rondam.

No fundo, só sei que nada sei, e flutuo num vazio infinito, como submarina perdida num oceano escuro, à procura de um farol que revele o mistério que habita dentro de mim.

Dizem os mais velhos que chorar liberta a alma. Mas quando as lágrimas se tornam dilúvios, inundam tudo: o corpo desgasta-se, surge a frustração, a melancolia, a raiva, o ódio — uma avalanche de emoções negras que empurra para um sono tão profundo que quase roça a morte.

Mesmo envoltos em escuridão, procuramos sombra — porque só existe sombra quando há luz. E a vida às vezes parece uma floresta bravia, cheia de animais ferozes e plantas envenenadas, onde as lianas prendem e os trilhos se torcem. Ainda assim, avançamos. Um passo de cada vez. Porque há sempre um lugar seguro algures — nem que seja depois de atravessar o caos.

No fim, é a fé e a esperança que mantêm o corpo de pé e a alma à tona. É isso que nos sustém. É isso que nos mantém vivos.

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