Grito
Gritos de sangue, nascidos da
raiva de não ter vivido o que sonhei viver. Contenho as lágrimas, tentando
resistir à fraqueza que me consome. São gritos silenciosos que ecoam no vento.
Quero ser livre, ao menos por um
dia. Libertar-me desta caverna escura que é a minha mente. Apenas um dia de
liberdade.
Esta prisão absurda, sem
muralhas, foi criada por mim. Sem paredes, sem correntes — apenas inércia. Sem
reflexo, sem brilho no olhar, sem esperança. Vivo como um fantasma, nas sombras
do invisível.
A quem murmuro, nada ouve. A quem
toco, nada sente. Minha alma vela pelo desejo de ser humana, só mais uma vez.
Sair das próprias trevas e sentir
na pele carícias, amor — todas as sensações esquecidas, como uma composição
improvisada. Sim, uma rapsódia faria sentido nesta simbiose apavorante e
desconcertante.
Uma fusão de dois corpos ociosos,
uma explosão de lava incandescente e fervorosa.
Sou dócil e gentil, não uma
ameaça. Por que não me deixas aproximar? Criar memórias desconhecidas? Ser
humana, apenas uma vez?
Navios naufragam sem jamais
sentir o vento em suas velas, conhecendo apenas o sal que fere a proa em
alto-mar. Minha história termina tristemente — aquela que nunca começou.
Delírios de um ser aprisionado,
dócil e gentil, que só deseja ser amado. Ser humano por um dia. E depois,
voltar às sombras do invisível, vivendo como um fantasma... com memórias para
mil anos.

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