Desejo sombrio
Na penumbra da sala, onde a luz hesita, dois corpos se
encontram —não apenas carne, mas tempestade contida.
Olhares incandescentes, como brasas antigas, acendem o que dormia no fundo do
ser.
Um desejo ancestral, semente proibida, germina em silêncio.
Movem-se como sombras em dança ritual, um eclipse de
vontades, onde o toque é feitiço e o gesto, profecia.
O mundo lá fora dissolve-se — só resta o agora, um campo de batalha e êxtase,
onde o prazer é linguagem sem palavras.
Suspiros tornam-se vento, clamores, trovões. As mãos,
famintas, desenham mapas secretos na pele, marcando territórios com a
delicadeza de um furacão contido.
Tecem-se promessas em cada arrepio, num jogo onde não há
vencedores, apenas entrega.
A roupa cai como folhas no outono, sussurrando segredos
ao chão, cúmplice silencioso.
Cada toque é um verso, cada gesto, uma nota, numa sinfonia de instintos que
desafia o tempo.
Na escuridão, cruzam-se fronteiras que a razão não ousa
nomear.
São um só corpo, uma só chama, dançando entre relâmpagos
e murmúrios, onde o céu e o abismo se tocam.
E quando a noite se rende ao primeiro sopro da aurora, o
feitiço desvanece, mas o eco permanece —um sussurro gravado na pele da memória,
lembrando que, por um instante, foram eternos.

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