sexta-feira, 1 de agosto de 2025

Silêncios que o Mar Leva


Silêncios que o Mar Leva

Ninguém sente verdadeiramente a dor do outro até que o silêncio se transforma em ausência. Como folhas levadas pelo vento, só notam a falta quando já não há sombra nem abrigo.

Há os que, em vez de estenderem a mão, se aproveitam das fragilidades alheias. Chamam-se audazes, que ironia amarga — quando, na verdade, são apenas cobardes disfarçados de coragem.

Vivemos numa pressa constante, como rios que correm sem nunca parar para ouvir o murmúrio das margens. E há quem, em vez de escutar, prefira julgar. Em vez de oferecer um ombro, um abraço, um gesto de ternura, apontam dedos.

Duvidam do nosso cansaço até que o corpo se rende. Duvidam da tristeza até que ela se instala como nevoeiro denso, e os ventos mudos trazem lágrimas feitas de sal e sangue, que rasgam a pele em silêncio. São cicatrizes invisíveis, mas profundas como raízes de árvores antigas.

Quando mudamos, dizem: “Ela está diferente.” Mas nunca viram o que sempre esteve ali. Os seus egos cegaram-nos para o brilho que se apagava aos poucos, aquele brilho que iluminava vidas e aquecia almas.

A dor, muitas vezes, é uma semente enterrada. Precisa de atenção, de luz, de espaço para ser compreendida. Ignorá-la é como tapar os olhos ao nascer do sol. E assim, vamos desaparecendo, como castelos de areia levados pelas ondas.

Sozinhos, transformamos pedras em degraus. Somos forçados a viver o presente com os pés na terra e o coração em contenção. Mas não podemos deixar que o fatalismo nos paralise. É preciso coragem para continuar a colocar o coração em tudo, mesmo quando ele está em pedaços. Acreditar que a vida, como a natureza, devolve tudo, no tempo certo.

Eu só quero coisas boas. Quero que esta solidão ensurdecedora me abandone. Quero colo, carinho, um ombro onde possa chorar em silêncio e libertar as sombras que me habitam. Quero ser leve como o vento que atravessa montanhas, livre como o voo de uma ave ao entardecer.

Quero viver os encantos e desencantos como um ser humano inteiro — não como uma alma penada, presa a obrigações e deveres. Quero florescer, mesmo depois do inverno.



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