Silêncios que o
Mar Leva
Ninguém sente
verdadeiramente a dor do outro até que o silêncio se transforma em ausência.
Como folhas levadas pelo vento, só notam a falta quando já não há sombra nem
abrigo.
Há os que, em
vez de estenderem a mão, se aproveitam das fragilidades alheias. Chamam-se
audazes, que ironia amarga — quando, na verdade, são apenas cobardes
disfarçados de coragem.
Vivemos numa pressa constante, como
rios que correm sem nunca parar para ouvir o murmúrio das margens. E há quem,
em vez de escutar, prefira julgar. Em vez de oferecer um ombro, um abraço, um
gesto de ternura, apontam dedos.
Duvidam do nosso
cansaço até que o corpo se rende. Duvidam da tristeza até que ela se instala
como nevoeiro denso, e os ventos mudos trazem lágrimas feitas de sal e sangue,
que rasgam a pele em silêncio. São cicatrizes invisíveis, mas profundas como
raízes de árvores antigas.
Quando mudamos,
dizem: “Ela está diferente.” Mas nunca viram o que sempre esteve ali. Os seus
egos cegaram-nos para o brilho que se apagava aos poucos, aquele brilho que
iluminava vidas e aquecia almas.
A dor, muitas
vezes, é uma semente enterrada. Precisa de atenção, de luz, de espaço para ser
compreendida. Ignorá-la é como tapar os olhos ao nascer do sol. E assim, vamos
desaparecendo, como castelos de areia levados pelas ondas.
Sozinhos,
transformamos pedras em degraus. Somos forçados a viver o presente com os pés
na terra e o coração em contenção. Mas não podemos deixar que o fatalismo nos
paralise. É preciso coragem para continuar a colocar o coração em tudo, mesmo
quando ele está em pedaços. Acreditar que a vida, como a natureza, devolve tudo,
no tempo certo.
Eu só quero
coisas boas. Quero que esta solidão ensurdecedora me abandone. Quero colo,
carinho, um ombro onde possa chorar em silêncio e libertar as sombras que me
habitam. Quero ser leve como o vento que atravessa montanhas, livre como o voo
de uma ave ao entardecer.
Quero viver os encantos e desencantos como um ser humano inteiro — não como uma alma penada, presa a obrigações e deveres. Quero florescer, mesmo depois do inverno.

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