Fragmentos de Mim
Todos temos segredos — uns leves como brisas, outros densos como
tempestades que se escondem atrás de olhos calmos. São relíquias da alma,
trancadas em cofres invisíveis, capazes de abalar os alicerces da razão. A
humanidade guarda-os como se fossem chamas sagradas, que nem a morte ousa
soprar. Porque segredo é isso: um eclipse da verdade, uma sombra que se recusa
a ser luz. Pode ser uma fórmula alquímica, um esconderijo de memórias, ou o
silêncio que protege o que não deve ser dito.
A curiosidade, por sua vez, é um rio que corre em todas as direções —
transversal, bilateral, e por vezes, torrencial. Quem dela bebe sem medida,
enlouquece com sede insaciável. É um fogo que arde mais em uns do que em
outros, uma bússola interna que aponta para o desconhecido. Pode ser nobre como
a busca por sabedoria, ou vil como o desejo de invadir o íntimo alheio. É
também o fascínio por relíquias raras, por tudo o que brilha com mistério. “A
curiosidade matou o gato” — dizem. E eu,
curiosa contida, sou um vulcão que se recusa a explodir, mas que ferve por
dentro.
Explorar, desvendar, ler mentes e sentimentos — são dons para alguns,
maldições para outros. Há quem veja com olhos de feiticeira, mas não existe
bola de cristal que revele o que o coração esconde. A vida é feita de
tempestades para dançar, luas para contemplar, e muros para quebrar. Os muros
que nos cercam são feitos das pedras que nós próprios erguemos — quase
intransponíveis. Mas haverá sempre alguém que tenta quebrá-los ou atravessá-los
como um fantasma.
A solidão que habita a mente é povoada por mil demónios sombrios. A
luz, por vezes apenas um vislumbre, tenta expulsar o que é maligno. A solidão
não é uma escolha consciente, mas uma solução para nos proteger do mundo. No
entanto, quando nos consome mesmo rodeados por pessoas, torna-se uma praga —
porque nunca nos encaixamos verdadeiramente.
Nem tudo o que brilha reluz. Existem verdadeiros profissionais da
máscara: sorriem por fora, mas sangram por dentro.
O futuro é uma incógnita, um labirinto de caminhos guiados por uma
bússola invisível. As escolhas podem ser boas ou más. Com os erros, podemos
aprender e viver — desde que tenhamos consciência de como os corrigir. Mas a
desilusão... essa é uma ferida que nunca cicatriza, pela personalidade que me
define e pelos valores que defendo.
Gostava de confiar na humanidade, mas não consigo. Ninguém me provou
que o amor existe — seja qual for a sua forma. Somos meros peões, peças de
xadrez, inertes. Dizemos que somos donos de nós mesmos, mas tudo o que nos
rodeia domina as nossas decisões e molda o presente e o dia de amanhã.
A desilusão estilhaça-me, tal como a solidão não escolhida.

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