Culpa sem Culpa
A culpa às vezes
nasce como um rio turvo, que corre apressado após uma tempestade de pensamentos
mal interpretados. Julgamos com base em ecos distantes, esquecendo que não
vemos o outro lado da montanha — onde talvez o sol brilhe ou a neve caia em
silêncio. Não somos oráculos. Não temos mapas do que se passa em vales alheios.
Mas há um dever de clareza, como uma nascente que brota límpida: uma só palavra
pode desviar o curso de um rio antes que ele transborde.
O silêncio, por
vezes, é como um lago profundo e imóvel. À superfície, tudo parece calmo,
mas nas profundezas há correntes que evitam confrontos inúteis, erosões
emocionais, deslizamentos de alma. Nem todo silêncio é consentimento — às vezes
é apenas a escolha de não escalar montanhas que não valem a vista.
É estranho
sentir saudade de uma presença que nunca se fez rio ao nosso lado. Uma
ausência que ecoa como o vento entre os penhascos — fria, constante,
inexplicável. E quando as memórias tristes voltam, como folhas secas levadas
pela corrente, tentamos ignorá-las, focando apenas nas flores que desabrocharam
à beira do caminho. Mas ignorar os espinhos não os faz desaparecer.
Reprimir traumas
é como represar um rio: a água acumula-se, a pressão cresce, e um dia a
barragem pode ceder. As cicatrizes são trilhas deixadas por avalanches
antigas — marcas de onde a terra cedeu, mas também de onde a vida se
reconstruiu.
A dor, essa,
esconde-se como neblina nas encostas. Chora-se em silêncio, como a
chuva fina que cai à noite, lavando a alma sem alarde. Em segredo, como o
orvalho que ninguém vê formar-se, mas que está lá, cobrindo tudo com uma camada
de verdade.
O verdadeiro
poder não está em escalar novas montanhas para fugir de quem somos, mas em
descer ao vale onde deixámos partes esquecidas de nós. Resgatar a bússola
interior, aquela que sempre soube o caminho. Ter a humildade de reconhecer que
errámos o trilho e a coragem de atravessar as pontes que nos levam de volta.
É a culpa sem culpa. Como um rio que corre sem saber porquê, apenas porque precisa seguir. E nós, como ele, seguimos — tentando encontrar o mar da paz interior.

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