segunda-feira, 22 de setembro de 2025

Culpa sem Culpa

 




Culpa sem Culpa

A culpa às vezes nasce como um rio turvo, que corre apressado após uma tempestade de pensamentos mal interpretados. Julgamos com base em ecos distantes, esquecendo que não vemos o outro lado da montanha — onde talvez o sol brilhe ou a neve caia em silêncio. Não somos oráculos. Não temos mapas do que se passa em vales alheios. Mas há um dever de clareza, como uma nascente que brota límpida: uma só palavra pode desviar o curso de um rio antes que ele transborde.

O silêncio, por vezes, é como um lago profundo e imóvel. À superfície, tudo parece calmo, mas nas profundezas há correntes que evitam confrontos inúteis, erosões emocionais, deslizamentos de alma. Nem todo silêncio é consentimento — às vezes é apenas a escolha de não escalar montanhas que não valem a vista.

É estranho sentir saudade de uma presença que nunca se fez rio ao nosso lado. Uma ausência que ecoa como o vento entre os penhascos — fria, constante, inexplicável. E quando as memórias tristes voltam, como folhas secas levadas pela corrente, tentamos ignorá-las, focando apenas nas flores que desabrocharam à beira do caminho. Mas ignorar os espinhos não os faz desaparecer.

Reprimir traumas é como represar um rio: a água acumula-se, a pressão cresce, e um dia a barragem pode ceder. As cicatrizes são trilhas deixadas por avalanches antigas — marcas de onde a terra cedeu, mas também de onde a vida se reconstruiu.

A dor, essa, esconde-se como neblina nas encostas. Chora-se em silêncio, como a chuva fina que cai à noite, lavando a alma sem alarde. Em segredo, como o orvalho que ninguém vê formar-se, mas que está lá, cobrindo tudo com uma camada de verdade.

O verdadeiro poder não está em escalar novas montanhas para fugir de quem somos, mas em descer ao vale onde deixámos partes esquecidas de nós. Resgatar a bússola interior, aquela que sempre soube o caminho. Ter a humildade de reconhecer que errámos o trilho e a coragem de atravessar as pontes que nos levam de volta.

É a culpa sem culpa. Como um rio que corre sem saber porquê, apenas porque precisa seguir. E nós, como ele, seguimos — tentando encontrar o mar da paz interior.




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