sexta-feira, 31 de outubro de 2025

A Beleza da Diferença

 

A Beleza da Diferença

Saindo um pouco da minha escrita criativa habitual — aquela que abre portais para a perceção individual, onde cada um lê e interpreta à sua maneira — hoje escrevo de forma mais direta. Ainda assim, sem perder a humildade ao usar o termo “obra literária”, reconheço que todo texto, seja ele alvo de críticas construtivas, destrutivas ou relativizadas, é uma expressão legítima do ser.

O que me move a escrever hoje nasceu de uma conversa breve, quase banal, mas que revelou uma verdade profunda: as pessoas ainda não estão preparadas para lidar com a diferença. E aceitar o que é diferente continua a ser um desafio. O ser humano, muitas vezes, reage com ataque, julgamento, rótulos. E esses rótulos, por mais banais que pareçam, colam-se à pele e marcam.

Vemos isso todos os dias: nas escolas, entre alunos e professores; nas famílias, entre pais e filhos; nos grupos de amigos, onde a empatia parece ter dado lugar à superficialidade. As amizades de hoje, em muitos casos, perderam a profundidade de outrora — aquele espírito de “um por todos e todos por um”, onde a diferença era aceite e até celebrada.

Hoje, socializa-se sem conexão. Basta adaptar-se ao momento, tirar partido do que é conveniente, e seguir. Mas será isso viver? Será isso partilhar?

Vivemos numa era em que o essencial é frequentemente ignorado. Uma flor, um jardim, uma música que embala a alma, a paz de um instante — tudo isso passa, despercebido. A humanidade tem sede do negativo, como se fosse atraída por tempestades, deixando-se levar pelas correntes do caos.

No entanto, há sempre uma lição em cada história. Cabe-nos procurar o que há de positivo, o que nos ensina, o que nos faz evoluir. Muitas vezes, vivemos sob uma sombra escura, ignorando os pequenos brilhos à nossa volta. O foco está no que falta, no que dói, no que falha — raramente no que floresce.

A morte é inevitável. Por isso, abençoem-se por cada novo amanhecer. Não temos um oráculo que nos diga como terminará o dia, mas temos o poder de escolher os nossos caminhos. E, com essas escolhas, vêm as consequências. Por vezes, é preciso relativizar, ponderar, contextualizar, suavizar… e, sobretudo, reconsiderar.

Será que algum dia o ser humano conseguirá viver a sua própria vida sem se perder na dos outros? Aceitar a diferença? Ver o lado bom mesmo quando tudo parece envolto em nuvens negras?

“Está a chover, que chatice”, dizem uns. “Está a chover, que dia lindo e sereno”, dizem outros. A chuva é a mesma. Os desafios que ela traz também. Mas a forma como os vemos muda tudo. E, sejamos sinceros, o planeta precisa da chuva — assim como nós precisamos de empatia e tolerância.

Mas não estamos a falar apenas de chuva. Estamos a falar de aceitação, de tolerância, de valorização do que é bom. De olhar à nossa volta com olhos de ver, com o coração aberto, e perceber que há tanto de belo que ignoramos.

Por vezes, parece que só um diagnóstico terminal desperta as pessoas para a vida. Só então valorizam o que sempre esteve ali: o toque, o riso, o silêncio, o agora.

Devemos correr sempre para a luz, nunca para as sombras.

Tolerância. Aceitação. Valorização.

Palavras-chave para uma vida mais leve, mais consciente, mais humana.

E não, este não é um convite para permanecer em ambientes tóxicos. É apenas um lembrete: há sempre um caminho para se sentir melhor, mesmo no meio do caos.
Às vezes, é preciso sorrir… mesmo quando tudo em nós quer chorar.





quarta-feira, 29 de outubro de 2025

Reflexo Complexo


Reflexo Complexo

Demónios não revezam o caminho da luz — permanecem nas memórias.

Sou forjada em cada batalha, e ao meu lado guardo os olhos que me amam como lâminas silenciosas.

As cicatrizes não apenas marcam os passos que dou — elas encobrem os fracassos que me moldaram.

É assim que as vozes me chamam: não pelo nome, mas pelo eco do que sobrevivi. 

Sou o silêncio que sucede o riso, o fim da promessa, o fim sem aviso.

Espelho final que te aprisiona, sou a última mão que te alcança antes do abismo.

Sou reflexo complexo, herdeira da matéria esquecida.

Apago os vossos nomes do chão, sou a casa vazia que o tempo abençoa,
a poeira que repousa nas vossas coroas.

Ergo muros de orgulho e ódio — tesouros falsos escondidos no peito.

No meu reino, a alma respira entre cinzas e fogo, onde tudo arde e se desfaz em fumaça.

Nos trilhos mais obscuros, escolho o meu caminho, e a luz, mesmo distante, será sempre minha conquista.

 Não me ponho de joelhos.

Sou forjada para batalhas.

Mas será que um dia… me vencerei?





 

segunda-feira, 13 de outubro de 2025

A Voz que o Tempo Engoliu

 


A Voz que o Tempo Engoliu

O luto, palavra que deriva do latim luctu, é mais do que um processo — é uma travessia sombria por um deserto emocional onde cada grão de areia é uma lembrança, cada sopro de vento uma ausência. É uma dança silenciosa entre o que foi e o que jamais voltará a ser. A perda significativa, como a morte de alguém que habitava nosso coração, desencadeia uma avalanche de reações emocionais, cognitivas e comportamentais que nos arrastam para um vale onde o tempo parece suspenso.

A dor do luto não tem fórmula, não obedece a cronogramas. Ela se molda ao íntimo de cada ser, como uma sombra que se alonga conforme o sol da esperança se esconde. Permitir-se sentir é como abrir as janelas de uma casa inundada — necessário para que a água da dor encontre saída e não apodreça o que ainda vive em nós.

No início, o luto se manifesta como um eco constante da perda, entrelaçado ao choro e à tristeza. Mas com o tempo, esse eco se transforma: ora suave, ora ensurdecedor, intercalando memórias doces e amargas, como se a mente tentasse costurar um tecido rasgado com linhas de lembrança.

Além da tristeza, há o choque — um silêncio ensurdecedor. Há raiva, solidão, ansiedade, um aperto no peito que não se explica, apenas se sente. E nesse mar revolto, eu me vejo à deriva, desenquadrada do ser comum, com poucos elos que realmente me conectam.

Sofro em silêncio, como quem caminha por um bosque escuro sem desejar acender a lanterna. Entro no meu habitual estado de não verbalização, onde o “está tudo bem” é apenas um disfarce para as lágrimas que escorrem com uma paz fingida. Mas algo em mim se incendiou — não pela perda em si, mas pela omissão cruel da notícia. Há quem se diga humano, mas na hora de comunicar o que fere, escolhe o silêncio. Talvez por cobiça da minha conexão, talvez por descaso.

É triste demais perder alguém com quem se partilhava tudo, sem filtros, sem julgamentos. Alguém que sabia rir das nossas dores e transformar o peso da vida em leveza com uma piada. Mesmo a milhares de quilómetros, ela estava sempre ao meu lado, como uma presença invisível, mas constante. Mas eu não era o epicentro. A nossa ligação era profunda, mas não central. E do outro lado, havia uma batalha titânica contra um monstro silencioso — o cancro — que por 14 anos tentou roubar sua luz. E conseguiu.

A ausência era comum, o silêncio esperado. Trocávamos emojis, piadas, fotos tolas. Eu respeitava o seu espaço, sabia das suas batalhas. Ela sofria, só Deus sabe quanto, mas nunca deixou de ser gigante. Mulher, mãe, prima. E mesmo nos momentos mais difíceis, havia retorno. Até que não houve mais.

Meses de silêncio absoluto. As mensagens lidas, mas sem resposta. E eu, sem saber, continuava a enviar carinho, força, esperança. Descobri numa conversa trivial que ela já jazia desde Junho. Não pude fazer o meu luto. Não pude dizer adeus. Não pude oferecer palavras amigas quando mais precisava. E isso me dilacera.

A dor da perda é imensa, mas a mágoa da omissão é um veneno lento. Perdi mais uma pessoa que significava muito. E são poucas as que realmente me tocam. O resto são conhecidos — sem ofensa — mas a profundidade da conexão é rara, quase sagrada.

Estou em sofrimento. Um sofrimento que não sei nomear, pois é feito de muitas camadas: dor, raiva, saudade, incredulidade. Lembrá-la será inevitável. Ela foi um anjo na minha vida. E espero que agora esteja num céu confortável, com sua missão cumprida, rodeada de amor.

Perdoar a omissão? Talvez um dia. Colocar uma pedra, talvez. Mas esquecer, jamais.

Cada vez mais me sinto só, nas sombras, na invisibilidade. Como uma estrela apagada num céu que já não olha para mim.




quarta-feira, 8 de outubro de 2025

A Metamorfose do Ser


A Metamorfose do Ser

Humanidade: um conceito com múltiplas máscaras. Pode ser o nome dado ao conjunto dos seres humanos, à natureza que nos define, ou aos sentimentos nobres como compaixão e solidariedade. Mas essa definição é uma cortina de fumaça. A palavra, derivada do latim humanitas, carrega tanto o peso da espécie quanto a promessa das virtudes que raramente se cumprem.

Ser humano é nascer com potencial. Ser pessoa é conquistar esse título.
A “pessoa” não nasce com o “homem”. É um estado de consciência, uma construção que exige razão, responsabilidade e reconhecimento de si mesmo em múltiplos tempos e espaços.


A diferença entre o homem e a pessoa é abissal — o primeiro é biológico, o segundo é ético.

Vivemos numa era onde a desumanidade veste terno e fala manso. A crueldade não grita, ela calcula. A selvageria não ruge, ela manipula. O oportunismo sorri, mas tem dentes afiados.


O mundo está infestado de lobos em pele de cordeiro, e muitos deles ocupam lugares de poder, ditam normas, julgam sem conhecer, ferem sem tocar.

A transformação é um terremoto interno.
Mudar, reconstruir, restaurar — são verbos que só se conjugam quando estamos quebrados. É no caos que a essência se revela. Quem atravessa esse processo carrega cicatrizes que brilham mais que medalhas.


Tudo o que é restaurado jamais retorna igual ou se torna mais sensível, mais intenso, mais refinado — ou se quebra ainda mais. A reconstrução não é um retorno, é uma metamorfose. Pensar em nós mesmos é um ato de sobrevivência.


Não permitas que ninguém apague tua luz. Que ela seja teu guia, mesmo quando as sombras te acompanhem como velhas companheiras silenciosas.


E quando necessário, sê invisível. Recolhe-te no silêncio. Afasta os lobos em pele de cordeiro — eles não merecem tua essência.

Viver não é pecado. Pecado é viver sob moldes impostos, sob a chantagem da aceitação social e das leis que muitas vezes são apenas máscaras da injustiça.
Leis são palavras escritas por mãos humanas: falíveis, manipuláveis, disfuncionais. Feitas por pessoas, algumas sociopatas, outras hipócritas.


A injustiça não é exceção — é sintoma.

Eu sou eu. E serei sempre eu. Não peço permissão para existir.

Mereço respeito. Mereço espaço.

Se não aceitam a diferença, que fiquem com a mesmice.

I am me and I will always be me.




The Guardian of Shadows

                                                              The Guardian of Shadows He is made of ink and silence. Each tattoo is a spell ...