A Voz que o
Tempo Engoliu
O luto, palavra que deriva do
latim luctu, é mais do que um processo — é uma travessia sombria por um
deserto emocional onde cada grão de areia é uma lembrança, cada sopro de vento
uma ausência. É uma dança silenciosa entre o que foi e o que jamais voltará a
ser. A perda significativa, como a morte de alguém que habitava nosso coração,
desencadeia uma avalanche de reações emocionais, cognitivas e comportamentais
que nos arrastam para um vale onde o tempo parece suspenso.
A dor do luto não tem fórmula,
não obedece a cronogramas. Ela se molda ao íntimo de cada ser, como uma sombra
que se alonga conforme o sol da esperança se esconde. Permitir-se sentir é como
abrir as janelas de uma casa inundada — necessário para que a água da dor
encontre saída e não apodreça o que ainda vive em nós.
No início, o luto se manifesta
como um eco constante da perda, entrelaçado ao choro e à tristeza. Mas com o
tempo, esse eco se transforma: ora suave, ora ensurdecedor, intercalando
memórias doces e amargas, como se a mente tentasse costurar um tecido rasgado
com linhas de lembrança.
Além da tristeza, há o choque —
um silêncio ensurdecedor. Há raiva, solidão, ansiedade, um aperto no peito que
não se explica, apenas se sente. E nesse mar revolto, eu me vejo à deriva,
desenquadrada do ser comum, com poucos elos que realmente me conectam.
Sofro em silêncio, como quem
caminha por um bosque escuro sem desejar acender a lanterna. Entro no meu
habitual estado de não verbalização, onde o “está tudo bem” é apenas um
disfarce para as lágrimas que escorrem com uma paz fingida. Mas algo em mim se incendiou
— não pela perda em si, mas pela omissão cruel da notícia. Há quem se diga
humano, mas na hora de comunicar o que fere, escolhe o silêncio. Talvez por
cobiça da minha conexão, talvez por descaso.
É triste demais perder alguém com
quem se partilhava tudo, sem filtros, sem julgamentos. Alguém que sabia rir das
nossas dores e transformar o peso da vida em leveza com uma piada. Mesmo a
milhares de quilómetros, ela estava sempre ao meu lado, como uma presença invisível,
mas constante. Mas eu não era o epicentro. A nossa ligação era profunda, mas
não central. E do outro lado, havia uma batalha titânica contra um monstro
silencioso — o cancro — que por 14 anos tentou roubar sua luz. E conseguiu.
A ausência era comum, o silêncio
esperado. Trocávamos emojis, piadas, fotos tolas. Eu respeitava o seu espaço,
sabia das suas batalhas. Ela sofria, só Deus sabe quanto, mas nunca deixou de
ser gigante. Mulher, mãe, prima. E mesmo nos momentos mais difíceis, havia
retorno. Até que não houve mais.
Meses de silêncio absoluto. As
mensagens lidas, mas sem resposta. E eu, sem saber, continuava a enviar
carinho, força, esperança. Descobri numa conversa trivial que ela já jazia
desde Junho. Não pude fazer o meu luto. Não pude dizer adeus. Não pude oferecer
palavras amigas quando mais precisava. E isso me dilacera.
A dor da perda é imensa, mas a
mágoa da omissão é um veneno lento. Perdi mais uma pessoa que significava
muito. E são poucas as que realmente me tocam. O resto são conhecidos — sem
ofensa — mas a profundidade da conexão é rara, quase sagrada.
Estou em sofrimento. Um
sofrimento que não sei nomear, pois é feito de muitas camadas: dor, raiva,
saudade, incredulidade. Lembrá-la será inevitável. Ela foi um anjo na minha
vida. E espero que agora esteja num céu confortável, com sua missão cumprida, rodeada
de amor.
Perdoar a omissão? Talvez um dia.
Colocar uma pedra, talvez. Mas esquecer, jamais.
Cada vez mais me sinto só, nas
sombras, na invisibilidade. Como uma estrela apagada num céu que já não olha
para mim.

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