segunda-feira, 13 de outubro de 2025

A Voz que o Tempo Engoliu

 


A Voz que o Tempo Engoliu

O luto, palavra que deriva do latim luctu, é mais do que um processo — é uma travessia sombria por um deserto emocional onde cada grão de areia é uma lembrança, cada sopro de vento uma ausência. É uma dança silenciosa entre o que foi e o que jamais voltará a ser. A perda significativa, como a morte de alguém que habitava nosso coração, desencadeia uma avalanche de reações emocionais, cognitivas e comportamentais que nos arrastam para um vale onde o tempo parece suspenso.

A dor do luto não tem fórmula, não obedece a cronogramas. Ela se molda ao íntimo de cada ser, como uma sombra que se alonga conforme o sol da esperança se esconde. Permitir-se sentir é como abrir as janelas de uma casa inundada — necessário para que a água da dor encontre saída e não apodreça o que ainda vive em nós.

No início, o luto se manifesta como um eco constante da perda, entrelaçado ao choro e à tristeza. Mas com o tempo, esse eco se transforma: ora suave, ora ensurdecedor, intercalando memórias doces e amargas, como se a mente tentasse costurar um tecido rasgado com linhas de lembrança.

Além da tristeza, há o choque — um silêncio ensurdecedor. Há raiva, solidão, ansiedade, um aperto no peito que não se explica, apenas se sente. E nesse mar revolto, eu me vejo à deriva, desenquadrada do ser comum, com poucos elos que realmente me conectam.

Sofro em silêncio, como quem caminha por um bosque escuro sem desejar acender a lanterna. Entro no meu habitual estado de não verbalização, onde o “está tudo bem” é apenas um disfarce para as lágrimas que escorrem com uma paz fingida. Mas algo em mim se incendiou — não pela perda em si, mas pela omissão cruel da notícia. Há quem se diga humano, mas na hora de comunicar o que fere, escolhe o silêncio. Talvez por cobiça da minha conexão, talvez por descaso.

É triste demais perder alguém com quem se partilhava tudo, sem filtros, sem julgamentos. Alguém que sabia rir das nossas dores e transformar o peso da vida em leveza com uma piada. Mesmo a milhares de quilómetros, ela estava sempre ao meu lado, como uma presença invisível, mas constante. Mas eu não era o epicentro. A nossa ligação era profunda, mas não central. E do outro lado, havia uma batalha titânica contra um monstro silencioso — o cancro — que por 14 anos tentou roubar sua luz. E conseguiu.

A ausência era comum, o silêncio esperado. Trocávamos emojis, piadas, fotos tolas. Eu respeitava o seu espaço, sabia das suas batalhas. Ela sofria, só Deus sabe quanto, mas nunca deixou de ser gigante. Mulher, mãe, prima. E mesmo nos momentos mais difíceis, havia retorno. Até que não houve mais.

Meses de silêncio absoluto. As mensagens lidas, mas sem resposta. E eu, sem saber, continuava a enviar carinho, força, esperança. Descobri numa conversa trivial que ela já jazia desde Junho. Não pude fazer o meu luto. Não pude dizer adeus. Não pude oferecer palavras amigas quando mais precisava. E isso me dilacera.

A dor da perda é imensa, mas a mágoa da omissão é um veneno lento. Perdi mais uma pessoa que significava muito. E são poucas as que realmente me tocam. O resto são conhecidos — sem ofensa — mas a profundidade da conexão é rara, quase sagrada.

Estou em sofrimento. Um sofrimento que não sei nomear, pois é feito de muitas camadas: dor, raiva, saudade, incredulidade. Lembrá-la será inevitável. Ela foi um anjo na minha vida. E espero que agora esteja num céu confortável, com sua missão cumprida, rodeada de amor.

Perdoar a omissão? Talvez um dia. Colocar uma pedra, talvez. Mas esquecer, jamais.

Cada vez mais me sinto só, nas sombras, na invisibilidade. Como uma estrela apagada num céu que já não olha para mim.




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