quarta-feira, 23 de julho de 2025

A Guardiã da Luz na Floresta

 

A Guardiã da Luz na Floresta

Queria não ser a guardiã solitária de uma culpa que nunca foi minha, como uma árvore que carrega nos galhos o peso de um ninho que não construiu.

Queria que vissem quando luto para ser mais do que um eco perdido na mata queria, ser o rugido que inspira, não apenas o sussurro das expectativas alheias.

Habito uma floresta de vozes, mas caminho sozinha entre as sombras das copas altas, onde a luz mal toca o chão.

Desejo ser abrigo firme como uma clareira segura no meio da tempestade, não apenas uma caverna onde se esconde por um instante.

Nos dias em que me perco enredada de pensamentos, anseio por mãos que me puxem de volta à trilha, por olhos que me digam: “és parte desta selva, és raiz e não apenas folha ao vento.”

Nas noites em que o silêncio se torna selva densa, não sei o que mais me assusta, ser descoberta ou esquecida.

Os fantasmas que me seguem são como predadores silenciosos: não atacam, apenas observam, deixando pegadas na terra da minha alma.

Espero que as partes de mim que escondi entre as folhagens não pensem que as abandonei. Às vezes, nem eu sei onde me escondi, talvez sob a pele de um camaleão que se adaptou demais.
Mas mesmo camuflada, sei quem sou. Sou raiz profunda, sou tronco firme, sou essência que resiste à estação da seca.

E quando o mundo silencia, pergunto-me se alguém vê o quanto aprendi a sobreviver sozinha, como uma onça que caça em silêncio. No meu silêncio há presas entre os dentes, há cicatrizes cobertas por musgo, há dor disfarçada de serenidade.

Nos dias em que me sinto estranha até para mim mesma, pergunto-me se, em algum lugar, alguém ainda reconhece o meu cheiro, o meu rastro. Nos momentos mais lúcidos, anseio por um reflexo que não me pareça um animal ferido, mas sim uma criatura livre, selvagem e inteira.

O meu grito ecoa como o uivo de um lobo solitário, perdido entre montanhas. O meu espírito vagueia entre a luz filtrada pelas copas e as sombras do sub-bosque. As trevas chamam por mim, mas sou feita de luz — uma luz que protejo como uma chama entre folhas secas, com medo que o vento a apague.

Mantenho-me fiel à minha essência, mesmo quando as lágrimas — invisíveis como orvalho — escorrem em silêncio. A solidão, a clausura, as limitações corroem-me como a água que lentamente molda a pedra à beira do rio.

A minha jornada é por escarpas cobertas de raízes e espinhos, mas sigo, porque acredito que do outro lado da montanha há um vale onde o sol dança com as borboletas. Lá, talvez eu possa dançar como uma bailarina da floresta, leve, livre, sobre as nuvens e os arco-íris, longe da prisão dos meus próprios pensamentos.



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The Guardian of Shadows

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