Maldição
Sem Nome
Por vezes,
sonhos indesejados regressam como marés teimosas, noite após noite, alguns
sussurrando desde os confins da infância. São como ecos de um passado que nunca
adormeceu, dominando o palco do subconsciente com a precisão de um maestro
invisível. Neles, confundem-se os contornos da realidade e da ilusão, como se a
mente navegasse num nevoeiro espesso onde tudo é e não é.
São pesadelos
sem rosto, abstratos como quadros de um pintor enlouquecido, saturados de
sensações que arrepiam a alma: um frio que serpenteia pela espinha, a
insegurança que se agarra como hera, a indecisão que paralisa, e acima de tudo,
o medo — esse tirano silencioso que reina sem clemência.
Sempre me vejo a
entrar num sótão mergulhado em trevas, onde a única saída é uma ponte de corda
e tábuas carcomidas, suspensa sobre o abismo do desconhecido. Cada passo é um
desafio à gravidade e à coragem; a madeira geme sob os meus pés e o meu coração
explode em mil estilhaços. O sangue corre como um rio em fúria, o ar escapa-me
como areia entre os dedos.
Será o medo da
travessia ou o terror do que se esconde do outro lado? Indecifrável. Uma
maldição que me persegue como uma sombra fiel. A escuridão é total, sombras
dançam em volta como espectros em celebração macabra. Um frio glacial
envolve-me, e fico ali, a meio caminho, prisioneira da dúvida. O medo ergue-se
como um monstro sem rosto, sem alma, e sem piedade. Encolho-me, e a ponte ganha
vida — balança, estremece, ruge — e o pavor incendeia-me por dentro como fogo
em palha seca.
Acordo. Um
alívio breve, efémero. As emoções ainda vibram no meu corpo como cordas de um
violino desafinado. Adormeço… e tudo recomeça, como um déjà vu amaldiçoado.
Não consigo
libertar-me. Ele vive em mim como trepadeiras espessas que se entranham na
carne do inconsciente. Inominável. Inexplicável. Inesperado. Um pesadelo que se
recusa a morrer, mesmo com o passar dos anos. Um enigma que o tempo não
decifra. Sinto-me acorrentada a algo sem nome, e só a aurora me oferece trégua.
Mas quando a noite cai, temo sempre o regresso do anjo negro que sobrevoa a
minha alma, trazendo consigo a mesma maldição.
É uma melodia
noturna dissonante, onde raramente tenho o deleite de sonhar com outras
paisagens. Mesmo os pesadelos alheios parecem mais suaves. O pânico é o meu
cárcere, e os grilhões que me prendem arrastam-me para um oceano profundo, onde
a luz é apenas uma miragem distante.
Ó maldita
maldição, quando me libertarás? Quando me permitirás dançar sobre campos
verdes, ao som de melodias doces, livres deste temor que me consome?

Sem comentários:
Enviar um comentário