segunda-feira, 7 de julho de 2025

Maldição Sem Nome

 

Maldição Sem Nome

Por vezes, sonhos indesejados regressam como marés teimosas, noite após noite, alguns sussurrando desde os confins da infância. São como ecos de um passado que nunca adormeceu, dominando o palco do subconsciente com a precisão de um maestro invisível. Neles, confundem-se os contornos da realidade e da ilusão, como se a mente navegasse num nevoeiro espesso onde tudo é e não é.

São pesadelos sem rosto, abstratos como quadros de um pintor enlouquecido, saturados de sensações que arrepiam a alma: um frio que serpenteia pela espinha, a insegurança que se agarra como hera, a indecisão que paralisa, e acima de tudo, o medo — esse tirano silencioso que reina sem clemência.

Sempre me vejo a entrar num sótão mergulhado em trevas, onde a única saída é uma ponte de corda e tábuas carcomidas, suspensa sobre o abismo do desconhecido. Cada passo é um desafio à gravidade e à coragem; a madeira geme sob os meus pés e o meu coração explode em mil estilhaços. O sangue corre como um rio em fúria, o ar escapa-me como areia entre os dedos.

Será o medo da travessia ou o terror do que se esconde do outro lado? Indecifrável. Uma maldição que me persegue como uma sombra fiel. A escuridão é total, sombras dançam em volta como espectros em celebração macabra. Um frio glacial envolve-me, e fico ali, a meio caminho, prisioneira da dúvida. O medo ergue-se como um monstro sem rosto, sem alma, e sem piedade. Encolho-me, e a ponte ganha vida — balança, estremece, ruge — e o pavor incendeia-me por dentro como fogo em palha seca.

Acordo. Um alívio breve, efémero. As emoções ainda vibram no meu corpo como cordas de um violino desafinado. Adormeço… e tudo recomeça, como um déjà vu amaldiçoado.

Não consigo libertar-me. Ele vive em mim como trepadeiras espessas que se entranham na carne do inconsciente. Inominável. Inexplicável. Inesperado. Um pesadelo que se recusa a morrer, mesmo com o passar dos anos. Um enigma que o tempo não decifra. Sinto-me acorrentada a algo sem nome, e só a aurora me oferece trégua. Mas quando a noite cai, temo sempre o regresso do anjo negro que sobrevoa a minha alma, trazendo consigo a mesma maldição.

É uma melodia noturna dissonante, onde raramente tenho o deleite de sonhar com outras paisagens. Mesmo os pesadelos alheios parecem mais suaves. O pânico é o meu cárcere, e os grilhões que me prendem arrastam-me para um oceano profundo, onde a luz é apenas uma miragem distante.

Ó maldita maldição, quando me libertarás? Quando me permitirás dançar sobre campos verdes, ao som de melodias doces, livres deste temor que me consome?




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