quarta-feira, 13 de agosto de 2025

Entre Correntes e Silêncios

Entre Correntes e Silêncios

Escrevo com o coração aberto, num momento em que me sinto particularmente vulnerável. Não estou no meu melhor, e talvez por isso as palavras saiam mais cruas, mas também mais verdadeiras.

Valorizo profundamente a sinceridade. Para mim, a verdade é sempre bem-vinda, mesmo quando é difícil de ouvir. Não existe necessidade de me esconder algo ou de me proteger com mentiras, prefiro sempre a transparência, mesmo que nos desafie.

Se em algum momento houver desconforto ou dúvida ou não souberem como abordar algo, peço apenas que sejam verdadeiros comigo. A confiança constrói-se com honestidade, e é isso que mais prezo nas relações que escolho cultivar.

O meu coração é um navio naufragado sem porto, à deriva num oceano sem mapas. Submerso no azul profundo, recolhe-se nas suas próprias ruínas, sem exigir resgate da vida nem dos navegantes que por ele passaram. Flutua como uma folha levada pela corrente, entregue ao tempo e ao silêncio. Um dia, talvez se transforme em pedra, guardando segredos nas suas fissuras, ou se dissolva no mar, tornando-se parte da própria imensidão.

È um mero desabafo, estou mais frágil e talvez por isso me falte o filtro habitual.

Mas acredito que é nos momentos mais difíceis que a verdade se torna ainda mais essencial.




 

 

terça-feira, 12 de agosto de 2025

Perfume da Ausência

 


Perfume da Ausência

É uma noite longa, e eu sou um eco quebrado, terrível em estar sozinha, como uma casa abandonada que ainda chama pelo teu nome.
Onde está minha mente? Ela dança em círculos ao redor de ti, como um fantasma apaixonado que não sabe partir, presa ao perfume da tua ausência.

Sonhos repetidos me seguem, como amantes ciumentos que não me deixam respirar, sussurrando teu nome em cada esquina do meu sono.
Eles quebram os ossos por dentro, com beijos que cortam como lâminas, com abraços que apertam até o último suspiro.

Tento manter minha cabeça acima da água, mas nunca aprendi a nadar.


Afundo no fundo, cada vez mais fundo, como quem se entrega ao amor que destrói, como quem se afoga no desejo de ser vista por ti.

Sinto a pressão se aproximar, como teus olhos me observando no escuro,
como se fosses o próprio abismo que me chama. 

Nunca aprendi a me encaixar, sou uma peça torta no quebra-cabeça do teu silêncio, mas insisto em caber, mesmo que doa.

Tento manter minha cabeça acima da água, mas quando dizem “afunda-te”,
mergulho, como quem corre para os braços errados, como quem ama demais e se afoga, feliz por morrer no mar que tem teu nome.

E eu só preciso nadar, nadar até ti, mesmo que tu sejas o mar que me afunda.





segunda-feira, 11 de agosto de 2025

Suspiro no Deserto


Suspiro no Deserto

Território esquecido pelos deuses, onde o silêncio grita e o tempo se arrasta como serpente sob o sol inclemente. Ali, criaturas sombrias deslizam entre sombras e areia, escorpiões de veneno oculto, aranhas de passos silenciosos, coiotes de olhos famintos.

Cada passo é um desafio, cada sopro de vento, uma lembrança de que a vida aqui se mede em resistência.

Caminho sobre brasas invisíveis, o calor não apenas queima a pele, ele consome a alma.
Tenho sede. Não apenas de água, mas de sentido, de paz, de algo que cure essa mistura de tristeza e alegria, perda e desejo, nostalgia e esperança. É um sentimento que se enrosca como raízes secas no coração.

A dor não é apenas física, é uma sinfonia dissonante que ecoa por dentro. Ela avisa, ela grita, ela transforma. Algo cresce em mim, como trevas que se alimentam de luz. É paixão? É raiva? É amor em combustão lenta? É loucura?
O calor tórrido do deserto não apenas distorce o horizonte, ele distorce os pensamentos, embaralha os sentimentos, apaga a fé.

O fogo que arde em mim não é apenas destruição, é ritual, é renascimento, é divino.
Mas está perdido, como um espírito errante entre o bem e o mal. Em cada cultura, o fogo é símbolo de energia sagrada. Em mim, ele é caos e criação.

Sobreviver aqui é dançar com emoções em tempestade. É sentir o coração bater como tambor de guerra e, ao mesmo tempo, como lamento de saudade.
Procuro um oásis, não apenas um lugar com água, mas um refúgio para a alma.
Um espaço onde a guerra interior se dissolva em paz, onde a alma possa respirar sem medo.

Onde estás, oásis? Será que ficarei aqui, prostrada, até o último suspiro, sem te encontrar?

                 



quinta-feira, 7 de agosto de 2025

A Vilã do Teu Amanhecer


A Vilã do Teu Amanhecer

Deixa cair uma palavra como quem abandona pétalas ao vento, e eu me torno a vilã sob o silêncio da sua lua. Vejo a loucura a nascer como relâmpago em céu de inverno, e sou a sombra que você insiste em temer.

És uma sombra como o lago que nunca reflete o sol, como uma árvore que rejeita o outono, mas ainda assim perde as suas folhas.

Se pudesse rir como o eco perdido nas montanhas, eu te prenderia. Se eu pudesse sorrir como o último raio antes da noite, seríamos dois corações errantes sob o mesmo luar. Mas preferes o frio à ternura.

Se eu pudesse rir como o riacho que dança entre pedras, eu deslizaria. Se eu pudesse sorrir como o sol que rompe a neblina, seríamos dois astros brincando no mesmo espaço. Mas preferes o eclipse à luz. 

Se eu pudesse amar como a chuva ama a terra, eu ficaria com a entrega das estações, como qualquer estrela ama seu céu distante, qualquer estrela, qualquer céu.

Eu sei o que sou — sou a noite que te observa em silêncio, e não me importo se sou a vilã do teu amanhecer que nunca chega.





 

 

 

 

segunda-feira, 4 de agosto de 2025

Ainda Grito Que Preciso de Ti

 


Ainda Grito Que Preciso de Ti

Estive só. Sinto falta do teu corpo, da tua presença que me aquecia como o sol que se deita sobre a pele nua ao entardecer. Tu, longe, sem sinal, sem retorno.
Queria ouvir-te dizer que te arrependes, que sabes que não está certo o silêncio, que erraste.

Fecho os olhos, tento esquecer-te, mas só vejo o teu rosto, como uma chama que dança no escuro, sempre presente.
Depois de tudo o que vivemos, por que partiste assim, de repente? Demasiado rápido, demasiado fugaz —não permitiste explorar nem partilhar o mais profundo em mim.

Não é amor, é lava que queima a pele. Fico a assistir, sem entender, enquanto destróis o que ainda podia ser vivido, aquilo que não foi explorado.
Não consigo evitar precisar de ti, afogo-me nas águas que antes me sustentavam,
e grito silenciosamente, que preciso de ti.

Ficaste como um vazio que não consigo preencher, como um quarto onde o calor se foi e só restam sombras. Pergunto-me o que tinha ontem, o que perdi.
Digo que estou bem, mas minto. Sufoco no sabor que deixaste em mim, como vinho derramado sobre lençóis brancos.

Tento afastar-me, mas não consigo, estás preso na minha mente como um eco que se recusa a morrer. Afogo-me nas águas que antes me erguiam, e grito, ainda grito, que preciso de ti.

Colinas áridas, lugares sem alma, carrego o peso da tua ausência como se fosse um inverno sem fim. Cada respiração que desperdiçámos é um lamento que ecoa no silêncio. Anseio pelos teus abraços suaves, sob o céu mais escuro, tudo por ti.
Não quero ver a noite desaparecer, nem o teu vermelho desvanecer em azul.

Quero fluir contigo na água sagrada, explorar os teus cantos mais secretos, perder-me em ti antes que desapareças no infinito.

Ainda procuro nos mesmos lugares, ainda corro em círculos que não levam a nada e espero, espero que um dia te lembres de mim, como o fogo lembra a madeira que o alimentou.




sexta-feira, 1 de agosto de 2025

Silêncios que o Mar Leva


Silêncios que o Mar Leva

Ninguém sente verdadeiramente a dor do outro até que o silêncio se transforma em ausência. Como folhas levadas pelo vento, só notam a falta quando já não há sombra nem abrigo.

Há os que, em vez de estenderem a mão, se aproveitam das fragilidades alheias. Chamam-se audazes, que ironia amarga — quando, na verdade, são apenas cobardes disfarçados de coragem.

Vivemos numa pressa constante, como rios que correm sem nunca parar para ouvir o murmúrio das margens. E há quem, em vez de escutar, prefira julgar. Em vez de oferecer um ombro, um abraço, um gesto de ternura, apontam dedos.

Duvidam do nosso cansaço até que o corpo se rende. Duvidam da tristeza até que ela se instala como nevoeiro denso, e os ventos mudos trazem lágrimas feitas de sal e sangue, que rasgam a pele em silêncio. São cicatrizes invisíveis, mas profundas como raízes de árvores antigas.

Quando mudamos, dizem: “Ela está diferente.” Mas nunca viram o que sempre esteve ali. Os seus egos cegaram-nos para o brilho que se apagava aos poucos, aquele brilho que iluminava vidas e aquecia almas.

A dor, muitas vezes, é uma semente enterrada. Precisa de atenção, de luz, de espaço para ser compreendida. Ignorá-la é como tapar os olhos ao nascer do sol. E assim, vamos desaparecendo, como castelos de areia levados pelas ondas.

Sozinhos, transformamos pedras em degraus. Somos forçados a viver o presente com os pés na terra e o coração em contenção. Mas não podemos deixar que o fatalismo nos paralise. É preciso coragem para continuar a colocar o coração em tudo, mesmo quando ele está em pedaços. Acreditar que a vida, como a natureza, devolve tudo, no tempo certo.

Eu só quero coisas boas. Quero que esta solidão ensurdecedora me abandone. Quero colo, carinho, um ombro onde possa chorar em silêncio e libertar as sombras que me habitam. Quero ser leve como o vento que atravessa montanhas, livre como o voo de uma ave ao entardecer.

Quero viver os encantos e desencantos como um ser humano inteiro — não como uma alma penada, presa a obrigações e deveres. Quero florescer, mesmo depois do inverno.



The Guardian of Shadows

                                                              The Guardian of Shadows He is made of ink and silence. Each tattoo is a spell ...