Coração que
Arde em Silêncio
Continuo a respirar como quem se afoga lentamente num oceano
de almas — marés humanas que me atravessam sem jamais tocar.
Sou uma ilha esquecida no meio da multidão, cercada por vozes que não me tocam,
por olhares que me trespassam como lâminas afiadas silenciosas.
Carrego o fardo invisível da existência, e cometo o pecado de continuar a
sentir num mundo que já não escuta.
A dor que me habita não é apenas um grito, é um trovão
sufocado, um relâmpago que nunca rasga o céu, mas que me consome por dentro.
No silêncio espesso que me envolve como um véu de luto, desejo apenas que um
olhar, um só, me veja. Que me veja de verdade e que perceba que estou aqui,
viva, ardendo em emoções que não cabem nas molduras do mundo.
O mundo, esqueceu, como escutar. Fala, julga, rotula — mas
não ouve. Tudo está desalinhado, como um espelho estilhaçado que já não reflete
quem sou.
Tento decifrar esta realidade,
mas ela fala uma língua estranha, feita de indiferença e máscaras. E eu,
criatura feita de luz e sombra, continuo invisível, sufocada pela ausência de
aceitação.
Os olhares continuam a julgar,
cegos para a verdade que sangra em silêncio.
Sou prisioneira de um mundo que teme a diferença, que castiga a intensidade,
que exige máscaras e silencia vontades. Mas dentro de mim, há uma chama, frágil
como uma vela ao vento, que ainda resiste. Protejo-a com as mãos trémulas, como
quem guarda o último vestígio de esperança.
À beira do colapso, com o coração
em estilhaços, espero. Espero pela mão de um anjo das sombras, que me leve para
além deste mundo de superfícies. Porque nas trevas também há beleza, e a luz,
mesmo moribunda, ainda dança dentro de mim.
Nada é mais cruel do que estar rodeada de pessoas e sentir-se só. Este mundo não me vê.
Não me entende. E eu, ser de emoções indomáveis, continuo a existir — entre a luz e a escuridão — desejando apenas ser reconhecida.
Não como um reflexo distorcido, mas como sou: intensamente viva, perigosamente
diferente, eternamente verdadeira.
