quinta-feira, 26 de junho de 2025

Rio de Fogo e Mel


                                                                       Rio de Fogo e Mel

A canção da minha ternura ronda o meu castelo solitário como um rio encantado, feito de vozes que sussurram como o vento entre as folhas e gestos que se erguem como montanhas ao entardecer.

Baixo as pontes fatigadas do meu orgulho, como galhos que cedem à primavera, e deixo que entrem os teus lumes, vaga-lumes de calor doce, teus agrados como pétalas que caem sobre a pele da noite.

Teus olhos, dois sóis de ouro negro, confundem a alma como tempestade em céu sereno.

Andarei na tua voz como quem se lança num rio de fogo e mel, onde nadam peixes raros como constelações líquidas, e as margens são feitas de musgo e desejo.

Chegarei à tua ilha — jardim secreto onde o tempo floresce em silêncio e atrás da porta, um banquete de ardores me espera, com frutos maduros de promessas e vinhos colhidos do orvalho da tua presença.

Quero erguer as pontes como árvores que se inclinam para o abraço, e cavar um fosso não de distância, mas de ternura, onde a mágoa se dissolva como neblina ao sol da manhã.

Na torre do meu castelo, vejo ao longe um barco, teu barco, cortando as águas como uma garça em voo sereno, trazendo contigo o perfume das marés e o sussurro das estrelas.

Seria pena naufragarmos sem viver as tempestades doces da emoção, mas que as viagens sejam como brisas, sem dor, e as chegadas, como o desabrochar de uma flor que esperou o verão inteiro.

Mil devaneios, mil sensações, dançam como folhas ao vento na minha imaginação.

O tempo, esse rio que tudo leva e tudo traz, pode, por vontade, estancar sua corrente, para que vivamos eternamente o fulgor dos nossos desejos, como se o mundo fosse um campo aberto sob o céu do nosso querer.

                                                                    




quarta-feira, 25 de junho de 2025

Linguagem Secreta das Almas


 

Linguagem Secreta das Almas

Não consigo ler os teus pensamentos, pois vivo num mundo entrelaçado de sentimentos, como um jardim secreto onde as emoções crescem entre raízes e galhos. Fujo de quimeras, essas sombras que dançam na minha mente, tentando me enganar. Quero decifrar a tua alma, como um explorador que desvenda mapas antigos, revelando a pura essência que pulsa no teu interior. Podes negar, mas somos como rios que correm na mesma direção, mesmo que por caminhos diferentes.

Não te vás embora, fica aqui comigo, pois não quero mentiras, apenas a verdade cristalina como um lago em calma. Se me abrires a porta do teu espírito, vais ver um manicômio de emoções, um universo de loucura e beleza. Passa na minha vida e vê que a louca sou eu própria, uma tempestade de saudades num vazio irracional, como um céu sem estrelas.

Vem comigo de norte a sul, navegando por mares de sonhos e tempestades de dúvidas. Sei que não sou fácil, como uma floresta densa que desafia o caminhante, e não sou um ser frágil à primeira vista, mas uma rocha que resiste às ondas do tempo.

E se eu soubesse que podia tentar a vida, talvez sorrisse como quem encontra um raio de sol após uma longa tempestade. Olha para cima, que eu sinto o teu cheiro como uma brisa que atravessa as nuvens, e imagino a tinta do teu corpo, mesmo na escuridão, como uma obra de arte que desafia a luz. Ambos temos razões para moldar o passado como um escultor e pensar no futuro como um arquiteto.

O mundo pode dar uma volta, e nós podemos dar a volta ao mundo, viajantes de almas em busca de algo maior. Quero mergulhar fundo no teu corpo, como um oceano que se perde no horizonte, e nele me afundar, entrelaçando as mãos como raízes que se unem na terra. É tudo fantasia, um sonho que dança na névoa, e não sei se sou tudo aquilo que desejas, mas quando me olhas nos olhos, sou teu reflexo, como uma lua que espelha o céu.

Caminho com coragem, mesmo quando me perco na viagem, como uma estrela que brilha na noite escura. Perdi-me e renasci, como uma fênix que se reinventa das cinzas. O vento tudo levou, levando minhas dúvidas e trazendo novas esperanças.

Continuo descalça, trilhando caminhos dolorosos, sem dona do destino, uma viajante errante na vastidão da vida. Vivo em mil cores, em mil formas, em mil intensidades, pois a vida é um arco-íris selvagem — e só tu tens o o pincel capaz de pintá-lo com o fogo ,com a ousadia dos teus sonhos, com a beleza crua da sua verdade.

Minha alma vive entre paradoxos, coerente na sua incoerência, incoerente na sua coerência. Vibra com intensidade, como uma borboleta que dança entre flores, leve e sublime, ou como uma loba que uiva para a lua, sedenta por espaço, conquista e liberdade.

Não é teimosia, é uma convicção ardente, como uma chama que não se apaga. É o anseio que queima, a carência que pulsa como um coração acelerado.

Algo transcendental: um ritmo compartilhado, uma sintonia de almas que se reconhecem no meio do caos. Onde nos perdemos na imensidão, apenas para nos reencontrar no mesmo gesto, no mesmo olhar, como duas estrelas que se encontram na vastidão do universo.

Pensamos no hoje, e quando o amanhã chegar, já o dominamos com a certeza de quem conhece o tempo como um aliado, não como um inimigo.

O tempo não é apenas o que passa, mas também o que permanece, como uma pegada na areia que o vento não consegue apagar. Ele domina tudo, molda quem somos, o que sentimos, o que guardamos na memória como um tesouro escondido.

Sem tempo, não há história, nem começo, nem fim.

Fala-me de ti.




terça-feira, 24 de junho de 2025

Desejo sombrio


                                                                    Desejo sombrio

Na penumbra da sala, onde a luz hesita, dois corpos se encontram —não apenas carne, mas tempestade contida.
Olhares incandescentes, como brasas antigas, acendem o que dormia no fundo do ser.
Um desejo ancestral, semente proibida, germina em silêncio.

Movem-se como sombras em dança ritual, um eclipse de vontades, onde o toque é feitiço e o gesto, profecia.
O mundo lá fora dissolve-se — só resta o agora, um campo de batalha e êxtase, onde o prazer é linguagem sem palavras.

Suspiros tornam-se vento, clamores, trovões. As mãos, famintas, desenham mapas secretos na pele, marcando territórios com a delicadeza de um furacão contido.

Tecem-se promessas em cada arrepio, num jogo onde não há vencedores, apenas entrega.

A roupa cai como folhas no outono, sussurrando segredos ao chão, cúmplice silencioso.
Cada toque é um verso, cada gesto, uma nota, numa sinfonia de instintos que desafia o tempo.

Na escuridão, cruzam-se fronteiras que a razão não ousa nomear.

São um só corpo, uma só chama, dançando entre relâmpagos e murmúrios, onde o céu e o abismo se tocam.

E quando a noite se rende ao primeiro sopro da aurora, o feitiço desvanece, mas o eco permanece —um sussurro gravado na pele da memória, lembrando que, por um instante, foram eternos.









quinta-feira, 19 de junho de 2025

A Alma que Pinta o Arco-Íris


 

                                                           A Alma que Pinta o Arco-Íris

A busca pela coerência e pela coesão não é apenas um exercício racional — é um mergulho profundo na alma, uma dança entre o sentido e o sentimento, entre o que se entende e o que se vive. São elas que dão forma à compreensão verdadeira, significativa, visceral.

A ausência de coerência é como um grito mudo no vazio — desconexão, inconsequência, uma realidade que se desfaz como névoa ao toque da luz. É a alma em desalinho, o espírito em conflito, a vida que se torna quase surreal. Assim como a saudade — essa palavra que pulsa em cada verso, em cada ausência, em cada amor que arde e não se apaga. Saudade é perda, é falta, é distância...mas também é desejo, é memória viva, é chama que insiste em não morrer.

O espírito humano é vasto, indomável. Carrega em si múltiplas conotações — energia vital, consciência, personalidade. É o fogo que nos move, que nos define. E quando se entrelaça com a alma, torna-se eterno, sobrevivente da morte, guardião dos nossos sonhos mais profundos.

Minha alma vive entre paradoxos — coerente na sua incoerência, incoerente na sua coerência. Vibra com intensidade, sabe o que quer, o que sente, o que busca. É borboleta que dança entre flores, leve e sublime. É loba que uiva para a lua, sedenta por espaço, por conquista, por liberdade.

Não é teimosia — é paixão. É convicção ardente. É o anseio que queima, a carência que pulsa.

Sinto-me como um navio entregue às ondas, embalada pela correnteza, arrepiada pela brisa que me envolve como um abraço. Saudade maldita, afasta-te! Quero o desejo, a conquista, o fogo que me move.

O desejo é árvore viva, folhas presas à esperança, flores que anunciam renascimentos. Desejar não é apenas querer — é arder. É lançar-se ao mar sem medo da tempestade. É viver sem freios, sem paz, porque a paz, às vezes, é o silêncio de quem esqueceu o prazer de sentir.

Sonhar e amar são instintos primitivos, selvagens, belos. São a essência da nossa humanidade. Neles nos perdemos e nos encontramos. Neles desvendamos mistérios e libertamos emoções.

A vida é um contrato com o inesperado. É fechar os olhos e mergulhar na imaginação. O hoje é chama, o amanhã é bruma. Sem pressa, alimentamos esperanças, criamos enigmas. A ausência de pressa é uma virtude ardente — queima como lava, mas nos dá poder. Soberania. Um império de mistérios. Um calor que nos eleva.

Confiemos no futuro. Aprendamos a suspender o tempo quando os corações batem em uníssono. Vivamos com intensidade, com coragem, com paixão. Criemos memórias dignas de reis e rainhas.

A vida é uma peça sem ensaios. Por isso, cante com a alma em chamas, chore com a fúria de quem sente tudo, dance como se o mundo fosse acabar ao próximo compasso, e ria com a liberdade de quem já se despediu do medo. Viva com paixão, com cada célula do seu ser, antes que a cortina caia e a plateia silenciosa não tenha tempo de aplaudir a sua coragem.

Viva em mil cores, em mil formas, em mil intensidades. Porque a vida é um arco-íris selvagem — e só você tem o pincel capaz de pintá-lo com o fogo do seu amor, com a ousadia dos seus sonhos, com a beleza crua da sua verdade.

                                                                              



quinta-feira, 12 de junho de 2025

Tempo

 


Tempo

O tempo perguntou ao tempo quanto tempo ele tem. E o tempo respondeu: o suficiente para transformar tudo. Mas a verdade é que cada pessoa vive o tempo de forma única. Para alguns, ele voa. Para outros, arrasta-se. Às vezes, ele para — como se se rendesse a um instante que vale mais do que mil horas. Um beijo pode durar um segundo e, ainda assim, parecer infinito.

O tempo é uma viagem silenciosa. Quando estamos imersos em algo verdadeiro, o mundo desacelera, e minutos se tornam eternidades.

Sinto a tua falta.
Sem ti, pareço perdida — como um barco encalhado em rios secos, sem direção, sem vida.

Quando estás perto, tudo muda. Iluminas-me. Inspiras-me. O tempo deixa de ser uma linha reta e passa a ser um espaço onde tudo é possível.

Procuro algo maior: um ritmo partilhado, um encontro de almas que se reconhecem no meio do caos. Onde nos perdemos e nos reencontramos no mesmo gesto, no mesmo olhar.

Toquei o vazio, e ali percebi: o tempo não é só o que passa, é também o que permanece.
Ele domina tudo. Molda o que somos, o que sentimos, o que lembramos.
Sem tempo, não há história. Não há nós.




quarta-feira, 11 de junho de 2025

Sopro divino

 


Sopro divino

Delicadamente, fio a fio, tece-se a teia — com a paciência de quem conhece o tempo e a arte da sedução. Cada linha é um sussurro, cada nó, uma promessa. Imóvel, o caçador observa o mundo com olhos de silêncio, enquanto o desejo amadurece na penumbra.

E então, no instante em que a essência de mil velas se acende no ar, o abraço se torna fatal, não de morte, mas de eternidade. Dois corações batem em uníssono, e o tempo, rendido, se curva. No toque dos lábios, o infinito se revela em um só segundo.

A presa, enlaçada pelo desejo, não resiste — entrega-se a si mesma, divina, como quem sonhou esse momento desde o princípio dos tempos. Submersos, enfeitiçados, alheios ao mundo, ambos se perdem e se encontram no mesmo gesto.

Mas até o predador, senhor da fome e da sombra, pode ser vencido pelo encanto. Há uma reviravolta subtil — presa ou caçador, quem conduz? Quem se rende? A natureza, sábia e matreira, guarda seus segredos em silêncio.

O desejo de saciar-se é uma força ancestral, indomável, que pulsa em cada ser. Subjugar ou ser subjugado — eis a dança mais antiga do mundo. Uma arte que transcende o tempo, onde a essência se torna sopro divino, e a luz interior consome o pensamento.

É uma viagem onde o mundo cessa, e minutos se tornam eternidades. No mesmo abraço fatal, os corações voltam a bater em compasso. No toque dos lábios, o infinito se repete e ali, enlaçados pelo desejo, submersos e encantados, ambos cedem à condição que os une: presa e predador, de mãos dadas, no mistério da entrega.



sexta-feira, 6 de junho de 2025

Ser é verbo




                                                                      Ser é verbo

A verdade e a mentira dançam juntas como sombras ao entardecer — inseparáveis, indistintas, moldadas pela luz de quem observa. Em certos ângulos, a mentira veste-se de verdade; noutros, a verdade se disfarça de ilusão. O peso de cada uma só se revela quando ousamos distingui-las.

E se tudo o que vivemos foi verdade apenas enquanto acreditávamos? E se agora, ao olhar para trás, tudo se desfaz como névoa ao sol? A memória é um espelho trincado — reflete, mas distorce.

Plantar uma semente de curgete esperando colher uma abóbora é como esperar que a vida nos dê respostas com perguntas erradas. Não nascerá uma melancia — nem milagre, nem metáfora salvará a incoerência.

Emoções, ideias, sensações — são irmãs siamesas que governam o nosso ser. Não pedem licença, apenas tomam o trono. Alimentam-se dos nossos dias como lobos famintos e, ainda assim, nos fazem sentir vivos.

A intuição? Talvez seja o sussurro do destino, talvez só um eco do medo. Ela separa o coração da razão como um rio que corta a montanha — belo, mas traiçoeiro, pronto para desabar em avalanche.

A curiosidade é uma tocha: pode iluminar ou incendiar. Mas sem ela, não haveria epopeias, nem descobertas, nem transcendência.

Guardar histórias em baús por milênios é como conservar brasas sob cinzas — aquecem a alma, mas também queimam de saudade.

Viver sem caos seria como beber água sem sede — insosso, mecânico, quase cruel. A entropia é o tempero da existência.

Não neguemos o que somos. Ser é verbo que exige ação: viver, viver, viver. Mesmo que o mundo se divida em paralelos ou se cruze em transversais, somos a interseção. A essência não se renega — ela pulsa, insiste, resiste.








domingo, 1 de junho de 2025

Chuva ácida

 

Chuva ácida

A chuva ácida do adeus escorre pelo meu rosto como se cada gota fosse uma lágrima forjada em espadas de cristal.
Não estava pronta para a tua partida — o chão fugiu-me dos pés como folhas levadas por um vendaval de outono.
Foste embora cedo demais, como uma estrela cadente que se apaga antes de realizar o desejo.
Sem ti, a minha fonte de inspiração secou como um rio encantado esquecido pelo tempo.

Carrego no peito um jardim de enigmas, onde flores silvestres crescem entre espinhos de incerteza.
As montanhas onde escondo o meu coração — lá no âmago da terra — tremem com o eco da tua ausência.
Lobo solitário, dominas-me a alma com os teus uivos que dançam no vento, mas nunca te vejo.
És miragem na floresta dos meus pensamentos, sombra entre os pinheiros, perfume de jasmim que desaparece ao toque.

Na solidão dos meus abismos, talvez os meus gritos sejam apenas ecos dos teus silêncios. Viajo por campos de névoa, entre lírios e faias, à procura de um sussurro teu — como uma alucinação doce e febril.
Um toque teu seria como o orvalho da madrugada sobre a pele ardente: mágico, arrepiante, libertador.

Quero perder-me no delírio da tua presença, onde a loucura se veste de amor e tudo faz sentido.

Sem promessas, sem contratos, volta. Arranca-me deste buraco de raízes secas e leva-me aos céus, onde as nuvens são feitas de algodão e esperança.
Delicia-te da minha essência, que te espera entre brumas, trilhos cobertos de musgo e cascatas que cantam o teu nome. Encontrar-me-ás pura, como flor que nunca foi colhida, pronta para alimentar-se do teu toque por mil primaveras.

As lágrimas que queimam transformar-se-ão em brisa suave, as espadas em pétalas de magnólia, as feridas em ilusões que dançam ao som da tua chegada.

Regressa. Dá-me o equilíbrio para libertar a tinta que me corre nas veias, para escrever com a alma o que só tu me fazes sentir. És mais do que sentimento — és vulcão em erupção, lava incandescente que não grita ao vento, mas grava na terra a tua marca.

Sou tua, inspiração, enquanto fores o feitiço que me encanta.
A chuva não esquece a tempestade, mas é na bonança que floresce o milagre.
É nesse instante sagrado que quero viver, até ao último sopro.

Não fujas, inspiração.
É em ti que plantei o meu coração — como uma semente à espera da tua luz.


quarta-feira, 28 de maio de 2025

Saudade insana


Saudade insana

Sentir saudade do que nunca se teve é como chorar por um sonho que não ousou nascer.

É nostalgia de um tempo que jamais correu no relógio, um eco de passos que nunca pisaram o chão da realidade. É um sentimento feito de névoa e silêncio, uma tapeçaria bordada com fios de desejo e ausência.

Essa saudade é um espelho partido onde se refletem mil versões de um passado que nunca existiu —um passado inventado pela alma faminta de sentido, de presença, de um toque que nunca veio. É a esperança vestida de luto, é o coração escrevendo cartas para um destino que nunca respondeu.

Há uma loucura doce nessa saudade insana —aquela que se sente por vidas não vividas, por amores que só existiram no intervalo entre dois suspiros.
É uma chama que arde sem ter sido acesa, um incêndio que consome sem deixar cinzas.

A mente, cúmplice do coração, recria momentos com a precisão de uma poetisa embriagada, e cada lembrança inventada se torna mais real do que qualquer verdade.
É o desejo desesperado pelo retorno de algo que nunca partiu, o anseio por um abraço que nunca se deu, por olhos que nunca se cruzaram.

Essa saudade pesa no corpo — vira insônia, ansiedade, um cansaço que não se explica.
É o tempo parando para ouvir o lamento de uma ausência sem nome.
Não se vive para ser notado, mas para que a própria falta ecoe como um trovão no silêncio dos outros.

A distância, essa escultora de sentimentos, faz com as emoções o que o vento faz ao fogo: apaga as pequenas, inflama as grandes. E assim seguimos, navegando sem bússola pelos mares da obscuridade, até que as folhas da alma caiam, exaustas, no outono da esperança.

Saudade insana, nada posso te oferecer senão o cansaço de existir em vão, de ter tocado apenas a sombra do que poderia ter sido. Meus dedos entrelaçaram-se com a névoa, e no vazio encontrei a essência do abandono.

Ficarei só, como os veleiros ancorados em portos esquecidos, esperando ventos que não virão.
Porque há saudades que não têm nome — apenas moram em nós, como tempestades que nunca cessam.




terça-feira, 27 de maio de 2025

Feitiço em Pedra Viva


Feitiço em Pedra Viva

Há dias em que a alma se sente como um campo devastado após a tempestade — a tristeza sopra como um vento frio que atravessa tudo, sem pedir licença. É uma dor que não grita, mas consome em silêncio, como fogo que arde por dentro sem mostrar chama.

Sinto-me como uma flor murcha à sombra, sem sol, sem água, sem mãos que a toquem com ternura. O corpo pesa como pedra antiga, esquecida num jardim onde ninguém mais passa. O sorriso que ofereço é um espelho rachado — reflete, mas não revela. É um gesto vazio, um perfume de mentira.

Vivo num teatro de ilusões, onde a máscara já se colou ao rosto. Sou invisível, como se a minha existência fosse feita de névoa. Há muito que o calor humano não me visita — nem um afago, nem um olhar que me veja de verdade.

Estou exausta. Tão cansada. Nesta vida, somos viajantes perdidos, não mestres do caminho. E às vezes, pergunto-me: seria o fim uma libertação? Mas até no desconhecido, talvez habitem sombras que nos perseguem, demónios que se alimentam do que resta da nossa esperança.

A vida é uma vela acesa ao vento — a cera derrete como lágrimas, e eu protejo a chama com as mãos trêmulas, temendo que um sopro cruel a apague antes do tempo. Quando abro a alma, ela é tratada como exagero, como drama. Dizem que é só uma fase, mas não veem o abismo que me habita.

Talvez um beijo — não de pena, mas de verdade — pudesse quebrar este feitiço. Um gesto puro, que me devolvesse à carne, ao sangue, ao calor de ser humana. Só por um instante. Para guardar uma memória que me sustente por mil anos.

Quero um ombro onde repousar o cansaço, um gesto simples que diga: “estou aqui”. Um ouvido que escute sem julgar. Quero ousar quebrar esta maldição. Quero voltar a sentir. A ser.

Ser humana é também ter dias nublados. Quero olhar-me com mais gentileza, aceitar que não preciso ser forte sempre. Permitir-me sentir sem medo de parecer frágil. Talvez eu não seja feita de encantos, mas de sentimentos profundos que me silenciam quando mais quero falar.

Só desejo isso: ser humana. Por um momento. E guardar essa lembrança como um relicário de luz, para me agarrar à vida quando tudo parecer escuro demais.

                                                 



segunda-feira, 26 de maio de 2025

Asas de Vidro

 


Asas de Vidro

Vagueio pelo bosque com asas de vidro, frágeis como promessas ao vento.
A brisa, suave como um sussurro antigo, acaricia-me o rosto e embriaga-me com a alquimia das fragrâncias silvestres. Tudo ao meu redor é um mar de verde pulsante, uma sinfonia de beleza intocada — mas reina o silêncio, um silêncio que pesa como presságio.
A natureza, tão viva, parece conter a respiração. Algo não está certo.

Sou chamada por uma voz sem som, um feitiço que me enlaça a alma. Tropeço entre os arbustos e, num instante, elevo-me aos céus com minhas asas de vidro, cintilantes como sonhos por cumprir.
Mas sobre uma clareira, um golpe invisível — como uma flecha em chamas — rasga o ar e atinge-me.
As asas estilhaçam-se em mil lamentos e caio, em queda livre, num poço onde a escuridão é rainha.

No fundo, o chão é gélido, sem luz. O ar é fétido, pútrido, como se a própria morte sussurrasse ao meu ouvido.
Sinto náuseas, o corpo fraqueja, e a luz do céu parece uma miragem distante.
Mil pensamentos assaltam-me — quero fugir, correr, desaparecer deste lugar assombrado e sem vida.

A ilusão, traiçoeira, faz-me crer que caminho. Mas estou imóvel, prisioneira do chão. Exausta, grito em silêncio: quero viver. O corpo, entorpecido, já não me serve.Tenho de o abandonar se quiser sobreviver.

Cerro os olhos e a alma, leve como bruma, eleva-se. Rompo os céus e deixo para trás o abismo de dor. A lua, testemunha do meu renascimento, observa em silêncio. As asas de cristal, outrora quebradas, ardem agora em chamas rubras —renasço das sombras num crepúsculo enigmático.

Fujo da clareira como quem foge de um pesadelo.
O que mais virá?
Talvez o amanhecer traga respostas, talvez decifre o mistério que agora habita o meu ser.
Sou feita de histórias intermináveis, de emoções que dançam com desilusões, como fantasmas num castelo esquecido.

Mas não há o que temer. É preciso coragem para continuar a caminhar, esperar, com o coração em vigília, o que o destino nos reserva. Somos viajantes, não mestres do caminho.

Entrei no bosque. Saí do bosque.
Para onde vou?
É um enigma por resolver.
Mas tudo, tudo se revelará… ao amanhecer.




 


sexta-feira, 23 de maio de 2025

Ilusória Cura

 




Ilusória Cura

Noite escura, silêncio que ecoa no vazio, perdida em mim mesma.

Minha estrela, solitária no céu, cintilas com uma luz quebrada, tão tênue que mal me toca — um véu de saudade que não aquece, apenas envolve.

Há uma dor bela na quietude que se instala no crepúsculo dos meus pensamentos.
Ali jazes, livre e translúcida, escapando dos abismos que me prendem.

Tua presença desassombra minha alma ferida, e acalma, com doçura indomável, uma ânsia de paz que nunca chega por inteiro.

Tua luz, lacônica, cura tempestades, apazigua batalhas internas, mas não vence a guerra que me habita.

Noite escura, silêncio que grita em mim, estrela minha, ainda brilhas —mas tua luz, partida, é só reflexo de uma cura que não permanece.




quinta-feira, 22 de maio de 2025

Solidão

Solidão

Respiro como quem tenta não se afogar num mar de gente — ondas humanas que passam por mim, mas nenhuma se detém.

Sou ilha no meio da multidão, cercada de vozes que não me tocam, de olhares que me atravessam como lâminas frias, julgando sem conhecer o peso que carrego no peito.

A dor que me habita é um grito preso na garganta, um trovão que nunca chega a romper o céu.

E nesse silêncio que me envolve como um manto pesado, só desejo que alguém — apenas um — perceba que ainda existo, que ainda estou aqui.

Para quê palavras, se o mundo esqueceu de como escutar?

Tudo parece fora de lugar, como um espelho partido que já não reflete o que sou. Tento entender este mundo, mas ele fala uma língua que o meu coração já não reconhece.

Os olhares continuam a julgar, cegos para a verdade que sangra por dentro.


E eu, prisioneira do silêncio, sigo invisível, desejando apenas que alguém veja — veja de verdade — que eu ainda estou aqui.

                                                              

                                                 


 

quarta-feira, 21 de maio de 2025

Grito


Grito

Gritos de sangue, nascidos da raiva de não ter vivido o que sonhei viver. Contenho as lágrimas, tentando resistir à fraqueza que me consome. São gritos silenciosos que ecoam no vento.

Quero ser livre, ao menos por um dia. Libertar-me desta caverna escura que é a minha mente. Apenas um dia de liberdade.

Esta prisão absurda, sem muralhas, foi criada por mim. Sem paredes, sem correntes — apenas inércia. Sem reflexo, sem brilho no olhar, sem esperança. Vivo como um fantasma, nas sombras do invisível.

A quem murmuro, nada ouve. A quem toco, nada sente. Minha alma vela pelo desejo de ser humana, só mais uma vez.

Sair das próprias trevas e sentir na pele carícias, amor — todas as sensações esquecidas, como uma composição improvisada. Sim, uma rapsódia faria sentido nesta simbiose apavorante e desconcertante.

Uma fusão de dois corpos ociosos, uma explosão de lava incandescente e fervorosa.

Sou dócil e gentil, não uma ameaça. Por que não me deixas aproximar? Criar memórias desconhecidas? Ser humana, apenas uma vez?

Navios naufragam sem jamais sentir o vento em suas velas, conhecendo apenas o sal que fere a proa em alto-mar. Minha história termina tristemente — aquela que nunca começou.

Delírios de um ser aprisionado, dócil e gentil, que só deseja ser amado. Ser humano por um dia. E depois, voltar às sombras do invisível, vivendo como um fantasma... com memórias para mil anos.





The Guardian of Shadows

                                                              The Guardian of Shadows He is made of ink and silence. Each tattoo is a spell ...