quarta-feira, 28 de maio de 2025

Saudade insana


Saudade insana

Sentir saudade do que nunca se teve é como chorar por um sonho que não ousou nascer.

É nostalgia de um tempo que jamais correu no relógio, um eco de passos que nunca pisaram o chão da realidade. É um sentimento feito de névoa e silêncio, uma tapeçaria bordada com fios de desejo e ausência.

Essa saudade é um espelho partido onde se refletem mil versões de um passado que nunca existiu —um passado inventado pela alma faminta de sentido, de presença, de um toque que nunca veio. É a esperança vestida de luto, é o coração escrevendo cartas para um destino que nunca respondeu.

Há uma loucura doce nessa saudade insana —aquela que se sente por vidas não vividas, por amores que só existiram no intervalo entre dois suspiros.
É uma chama que arde sem ter sido acesa, um incêndio que consome sem deixar cinzas.

A mente, cúmplice do coração, recria momentos com a precisão de uma poetisa embriagada, e cada lembrança inventada se torna mais real do que qualquer verdade.
É o desejo desesperado pelo retorno de algo que nunca partiu, o anseio por um abraço que nunca se deu, por olhos que nunca se cruzaram.

Essa saudade pesa no corpo — vira insônia, ansiedade, um cansaço que não se explica.
É o tempo parando para ouvir o lamento de uma ausência sem nome.
Não se vive para ser notado, mas para que a própria falta ecoe como um trovão no silêncio dos outros.

A distância, essa escultora de sentimentos, faz com as emoções o que o vento faz ao fogo: apaga as pequenas, inflama as grandes. E assim seguimos, navegando sem bússola pelos mares da obscuridade, até que as folhas da alma caiam, exaustas, no outono da esperança.

Saudade insana, nada posso te oferecer senão o cansaço de existir em vão, de ter tocado apenas a sombra do que poderia ter sido. Meus dedos entrelaçaram-se com a névoa, e no vazio encontrei a essência do abandono.

Ficarei só, como os veleiros ancorados em portos esquecidos, esperando ventos que não virão.
Porque há saudades que não têm nome — apenas moram em nós, como tempestades que nunca cessam.




terça-feira, 27 de maio de 2025

Feitiço em Pedra Viva


Feitiço em Pedra Viva

Há dias em que a alma se sente como um campo devastado após a tempestade — a tristeza sopra como um vento frio que atravessa tudo, sem pedir licença. É uma dor que não grita, mas consome em silêncio, como fogo que arde por dentro sem mostrar chama.

Sinto-me como uma flor murcha à sombra, sem sol, sem água, sem mãos que a toquem com ternura. O corpo pesa como pedra antiga, esquecida num jardim onde ninguém mais passa. O sorriso que ofereço é um espelho rachado — reflete, mas não revela. É um gesto vazio, um perfume de mentira.

Vivo num teatro de ilusões, onde a máscara já se colou ao rosto. Sou invisível, como se a minha existência fosse feita de névoa. Há muito que o calor humano não me visita — nem um afago, nem um olhar que me veja de verdade.

Estou exausta. Tão cansada. Nesta vida, somos viajantes perdidos, não mestres do caminho. E às vezes, pergunto-me: seria o fim uma libertação? Mas até no desconhecido, talvez habitem sombras que nos perseguem, demónios que se alimentam do que resta da nossa esperança.

A vida é uma vela acesa ao vento — a cera derrete como lágrimas, e eu protejo a chama com as mãos trêmulas, temendo que um sopro cruel a apague antes do tempo. Quando abro a alma, ela é tratada como exagero, como drama. Dizem que é só uma fase, mas não veem o abismo que me habita.

Talvez um beijo — não de pena, mas de verdade — pudesse quebrar este feitiço. Um gesto puro, que me devolvesse à carne, ao sangue, ao calor de ser humana. Só por um instante. Para guardar uma memória que me sustente por mil anos.

Quero um ombro onde repousar o cansaço, um gesto simples que diga: “estou aqui”. Um ouvido que escute sem julgar. Quero ousar quebrar esta maldição. Quero voltar a sentir. A ser.

Ser humana é também ter dias nublados. Quero olhar-me com mais gentileza, aceitar que não preciso ser forte sempre. Permitir-me sentir sem medo de parecer frágil. Talvez eu não seja feita de encantos, mas de sentimentos profundos que me silenciam quando mais quero falar.

Só desejo isso: ser humana. Por um momento. E guardar essa lembrança como um relicário de luz, para me agarrar à vida quando tudo parecer escuro demais.

                                                 



segunda-feira, 26 de maio de 2025

Asas de Vidro

 


Asas de Vidro

Vagueio pelo bosque com asas de vidro, frágeis como promessas ao vento.
A brisa, suave como um sussurro antigo, acaricia-me o rosto e embriaga-me com a alquimia das fragrâncias silvestres. Tudo ao meu redor é um mar de verde pulsante, uma sinfonia de beleza intocada — mas reina o silêncio, um silêncio que pesa como presságio.
A natureza, tão viva, parece conter a respiração. Algo não está certo.

Sou chamada por uma voz sem som, um feitiço que me enlaça a alma. Tropeço entre os arbustos e, num instante, elevo-me aos céus com minhas asas de vidro, cintilantes como sonhos por cumprir.
Mas sobre uma clareira, um golpe invisível — como uma flecha em chamas — rasga o ar e atinge-me.
As asas estilhaçam-se em mil lamentos e caio, em queda livre, num poço onde a escuridão é rainha.

No fundo, o chão é gélido, sem luz. O ar é fétido, pútrido, como se a própria morte sussurrasse ao meu ouvido.
Sinto náuseas, o corpo fraqueja, e a luz do céu parece uma miragem distante.
Mil pensamentos assaltam-me — quero fugir, correr, desaparecer deste lugar assombrado e sem vida.

A ilusão, traiçoeira, faz-me crer que caminho. Mas estou imóvel, prisioneira do chão. Exausta, grito em silêncio: quero viver. O corpo, entorpecido, já não me serve.Tenho de o abandonar se quiser sobreviver.

Cerro os olhos e a alma, leve como bruma, eleva-se. Rompo os céus e deixo para trás o abismo de dor. A lua, testemunha do meu renascimento, observa em silêncio. As asas de cristal, outrora quebradas, ardem agora em chamas rubras —renasço das sombras num crepúsculo enigmático.

Fujo da clareira como quem foge de um pesadelo.
O que mais virá?
Talvez o amanhecer traga respostas, talvez decifre o mistério que agora habita o meu ser.
Sou feita de histórias intermináveis, de emoções que dançam com desilusões, como fantasmas num castelo esquecido.

Mas não há o que temer. É preciso coragem para continuar a caminhar, esperar, com o coração em vigília, o que o destino nos reserva. Somos viajantes, não mestres do caminho.

Entrei no bosque. Saí do bosque.
Para onde vou?
É um enigma por resolver.
Mas tudo, tudo se revelará… ao amanhecer.




 


sexta-feira, 23 de maio de 2025

Ilusória Cura

 




Ilusória Cura

Noite escura, silêncio que ecoa no vazio, perdida em mim mesma.

Minha estrela, solitária no céu, cintilas com uma luz quebrada, tão tênue que mal me toca — um véu de saudade que não aquece, apenas envolve.

Há uma dor bela na quietude que se instala no crepúsculo dos meus pensamentos.
Ali jazes, livre e translúcida, escapando dos abismos que me prendem.

Tua presença desassombra minha alma ferida, e acalma, com doçura indomável, uma ânsia de paz que nunca chega por inteiro.

Tua luz, lacônica, cura tempestades, apazigua batalhas internas, mas não vence a guerra que me habita.

Noite escura, silêncio que grita em mim, estrela minha, ainda brilhas —mas tua luz, partida, é só reflexo de uma cura que não permanece.




quinta-feira, 22 de maio de 2025

Solidão

Solidão

Respiro como quem tenta não se afogar num mar de gente — ondas humanas que passam por mim, mas nenhuma se detém.

Sou ilha no meio da multidão, cercada de vozes que não me tocam, de olhares que me atravessam como lâminas frias, julgando sem conhecer o peso que carrego no peito.

A dor que me habita é um grito preso na garganta, um trovão que nunca chega a romper o céu.

E nesse silêncio que me envolve como um manto pesado, só desejo que alguém — apenas um — perceba que ainda existo, que ainda estou aqui.

Para quê palavras, se o mundo esqueceu de como escutar?

Tudo parece fora de lugar, como um espelho partido que já não reflete o que sou. Tento entender este mundo, mas ele fala uma língua que o meu coração já não reconhece.

Os olhares continuam a julgar, cegos para a verdade que sangra por dentro.


E eu, prisioneira do silêncio, sigo invisível, desejando apenas que alguém veja — veja de verdade — que eu ainda estou aqui.

                                                              

                                                 


 

quarta-feira, 21 de maio de 2025

Grito


Grito

Gritos de sangue, nascidos da raiva de não ter vivido o que sonhei viver. Contenho as lágrimas, tentando resistir à fraqueza que me consome. São gritos silenciosos que ecoam no vento.

Quero ser livre, ao menos por um dia. Libertar-me desta caverna escura que é a minha mente. Apenas um dia de liberdade.

Esta prisão absurda, sem muralhas, foi criada por mim. Sem paredes, sem correntes — apenas inércia. Sem reflexo, sem brilho no olhar, sem esperança. Vivo como um fantasma, nas sombras do invisível.

A quem murmuro, nada ouve. A quem toco, nada sente. Minha alma vela pelo desejo de ser humana, só mais uma vez.

Sair das próprias trevas e sentir na pele carícias, amor — todas as sensações esquecidas, como uma composição improvisada. Sim, uma rapsódia faria sentido nesta simbiose apavorante e desconcertante.

Uma fusão de dois corpos ociosos, uma explosão de lava incandescente e fervorosa.

Sou dócil e gentil, não uma ameaça. Por que não me deixas aproximar? Criar memórias desconhecidas? Ser humana, apenas uma vez?

Navios naufragam sem jamais sentir o vento em suas velas, conhecendo apenas o sal que fere a proa em alto-mar. Minha história termina tristemente — aquela que nunca começou.

Delírios de um ser aprisionado, dócil e gentil, que só deseja ser amado. Ser humano por um dia. E depois, voltar às sombras do invisível, vivendo como um fantasma... com memórias para mil anos.





terça-feira, 20 de maio de 2025

Inominável


Inominável 

 Dizem que colhemos o que semeamos…Mas plantei amor e colhi dor. Plantei alegria e colhi silêncio. Plantei presença e colhi ausência. Sim, colhemos sempre algo — mas nunca sabemos o quê nem quando.

Demência, loucura dos demónios, fujo de ti como quem foge de um incêndio na alma.
Deixa-me viver no meu mundo, onde tudo domino, tudo controlo, onde ainda sou rainha do meu próprio caos.

Com os dedos trémulos e a alma em carne viva. Este texto não é um pedido, nem um lamento — é um grito. Um grito que ecoa nas paredes do meu peito, onde a demência plantou raízes como heras venenosas, sufocando o que restava de mim.

Tu, que és ausência com forma, silêncio com peso, enigma sem chave — invadiste-me. Não com palavras, mas com a tua ausência delas. A realidade e a ilusão dançam diante dos meus olhos como chamas hipnóticas, e eu, perdida, tento distinguir o que é sonho e o que é sentença.

O desespero cobre-me como um véu de espinhos. Cada pensamento é uma batalha, cada memória uma ruína. Ainda assim, caminho. Sobre montanhas de dor e vales de incerteza, caminho. Porque dentro de mim, há uma guerreira que não se rende. Há uma chama que nem a loucura consegue apagar.

Quero alcançar-te, mas és feito de pedra e nevoeiro. És um labirinto sem saída, um livro sem páginas. E eu, tola, continuo a procurar-te nas entrelinhas do impossível. Creio que os meus olhos ainda possam espelhar um futuro onde tu existas — inteiro, presente, real.

Plantei amor, e colhi espinhos. Plantei esperança, e colhi silêncio. Mas continuo a plantar, porque é isso que os corações teimosos fazem. Continuam, mesmo quando tudo diz para parar.

Demência, essa amante cruel, tenta seduzir-me com promessas de esquecimento. Mas eu fujo. Fujo para dentro de mim, onde ainda controlo o caos, onde ainda sou rainha do meu próprio abismo.

Se algum dia lerem esta missiva — mesmo que seja apenas com os olhos da alma — saberão que lutei. Que amei. Que acreditei. E que, mesmo à beira do colapso, escolhi viver. Com a dor de mil ausências…

                                                                 
                                                           




Demência


Demência

Demência, tirana silenciosa invades-me como névoa espessa que se entranha nos ossos da alma. Roubas-me o raciocínio com dedos invisíveis, e a memória esvai-se como tinta diluída na chuva do tempo. As emoções, outrora minhas, são agora tuas —trepadeiras sombrias que se enroscam no meu peito, sufocando a lucidez com o doce veneno da ilusão.

Realidade e fantasia fundem-se como metais em brasa na forja de um destino incerto.
O desespero, esse arcano cruel, deita-se sobre mim como um manto de espinhos, ferindo a essência que ainda ousa lutar. Sou guerreira de carne e espírito, e mesmo diante da quimera da loucura, busco as margens da certeza —um lugar onde o sol ainda sabe o meu nome.

Resiliência: a palavra que pulsa no meu sangue. A chave que abre portais para mundos onde reina a paz, onde os horizontes são feitos de luz e silêncio, e o espírito dança livre entre constelações esquecidas.

O vento, cúmplice da minha dor, acaricia-me o rosto como pétalas de jasmim soltas no crepúsculo. Caminho sobre montanhas de pedra e sombra, mas não me quebro —
porque o meu âmago é feito de fogo e verdade. De coração exposto, enfrento esta incoerência que me atormenta, e deixo que a verdade me abrace como borboletas que pousam na alma e a elevam aos céus.

O abstrato corre nas minhas veias como lava —ira, paixão, saudade. Quero alcançar-te, mas és enigma selado, pragmático, frio, sem dono, sem cor.
Ainda assim, acredito: os meus olhos espelharão o futuro, mesmo que o presente seja um corpo inerte à beira da explosão.

A ilusão estilhaça-se. A realidade, nua e crua, ergue-se diante de mim como um oráculo de incertezas. Mas eu creio no divino. Creio que as conquistas pertencem aos audazes,
e que os fracos apenas dormem nas sombras do medo.




 

sexta-feira, 16 de maio de 2025

Capítulos


Capítulos

Chega um instante em que o coração se perde num nevoeiro de emoções — não se sabe se chora de tristeza, se arde em raiva ou se sangra em decepção. Apenas se sente o eco surdo de que algo, algures, está irremediavelmente fora do lugar. Como disse Shakespeare, com a precisão de quem já sofreu:
“Todo o mundo é capaz de dominar uma dor, exceto quem a sente.”

A vida, essa velha contadora de histórias, sussurra-nos ao ouvido que tudo tem um compasso, um tempo certo, um propósito escondido nas entrelinhas do caos. Nada é por acaso — as pausas são vírgulas, não pontos finais; as quedas, embora doam, são ensaios para o voo.
Recomeçar exige mais do que coragem: exige paciência. Porque as mudanças não batem à porta com avisos, nem trazem manuais de instruções. Ser zeloso é como acender uma vela na escuridão — um gesto pequeno, mas cheio de calor.

O que é verdadeiro, mesmo que se perca, encontra sempre o caminho de volta.
A vida é um livro de páginas vivas — não podemos reescrever os capítulos passados, mas temos sempre a caneta nas mãos para começar um novo. E talvez, só talvez, o próximo parágrafo seja o mais bonito de todos.




quinta-feira, 15 de maio de 2025

Essência do Arco-Íris


Essência do Arco-Íris

Entre o sonho e a realidade, um arco-íris se estende como uma ponte de fogo líquido, vibrando entre mundos que sussurram promessas e perigos. É uma fenda luminosa no tecido do tempo, por onde escorre um universo encantado e vertiginoso.

Aqueles que não foram tocados pela faísca apenas espreitam de longe, separados por muralhas de névoa e silêncio — muralhas que seduzem com o mesmo fervor com que repelem.

Desejo os teus lábios como quem deseja o primeiro sopro de ar após o naufrágio. O sabor da tua alma roça a minha como relâmpago em campo seco — e nesse toque, tudo arde.

Teu beijo é um portal: não de carne, mas de essência. Um limiar onde o tempo se curva e as almas se despem. Apenas um beijo — e o mundo se desfaz em luz e sombra.

Quando abrimos o coração, a alma ruge como um incêndio faminto. Queima por dentro, e nos perguntamos se a verdade é um veneno ou um milagre.

Não levantemos muros — que as almas se encontrem nuas, sem armaduras, se o destino ousar traçar esse encontro.

Almas entrelaçadas na vertigem do desejo, dançando na beira do abismo, procurando uma harmonia que só os loucos ousam sonhar.

Criemos memórias como brasas: doces, intensas, eternas. Sem culpa, sem lamento — apenas um instante terno e melódico no fim do arco-íris.

E se o destino escrever nossa história, que o faça com tinta de lava e palavras que sangram desejo. Sem medo. Sem freios. O mundo, então, arderá em nossas mãos.

Almas entrelaçadas na vertigem da loucura e na chama insaciável do desejo, em busca de uma harmonia que ecoe no infinito. Que nossas memórias sejam doces como o néctar proibido, ardentes como o sol do meio-dia, e eternas como os segredos sussurrados pelos deuses — sem culpa, sem lamento. Apenas um instante de ternura melódica no fim do arco-íris, onde o tempo se curva diante da paixão.

E se o destino ousar escrever nossa história, que o faça com letras de fogo e desejo. Queime as páginas da dúvida. Que não haja medo, nem remorso — pois o mundo, em chamas, pulsa entre nossos dedos.




                                                                   

Ansiedade

Ansiedade

A ansiedade é a besta que me espreita nas sombras, olhos flamejantes cravados na minha alma. Sinto o seu hálito gélido no pescoço — uma preocupação que se alastra como névoa venenosa, um medo que ruge como trovão dentro do peito. A realidade distorce-se como espelhos partidos num labirinto sem saída.

Mas não, não me deixo enganar. É ilusão. Tenho de continuar a caminhar, mesmo que os meus passos ecoem no abismo. Não me renderei às sombras que me caçam sem descanso.

Suores escorrem como chuva ácida, tremores que me enlaçam os tornozelos como lianas espinhosas, tentando enraizar-me no chão do desespero. Mas eu sou guerreira — arfante, sim, mas de pé. O coração troveja como um tambor de guerra.

Não, não, é ilusão. Continuo a andar. Não me entrego ao caos, não me resigno à ausência de luz. As trevas não terão o meu nome.

Sinto o perigo como uma lâmina invisível encostada à garganta, uma presença opressora que me quer ajoelhada. Mas não me curvo.

As minhas mãos escorregam, mas agarram-se às rochas da montanha escarpada. Subo, mesmo que o vento me fira, mesmo que o céu esteja ausente. Preciso da luz — não qualquer luz, mas a que aquece, a que cura. Preciso respirar ar puro, sair deste buraco negro que me quer devorar.

Tenho de tomar o leme, domar a fera que ruge dentro de mim. Tu és ilusão, nada mais. E eu lutarei até ao último fôlego para não seres dona de mim.

Ansiedade, angústia, inquietação — eu sou a comandante da minha alma. Tu és apenas uma sombra que se desfaz ao amanhecer. E quando a luz angelical romper o horizonte, eu respirarei fundo, em paz, e saberei: venci mais uma noite.

                                                                                                      




terça-feira, 13 de maio de 2025

Abismo


Abismo

Lentamente, como uma pétala que se solta ao vento, afundo-me nas entranhas do oceano da minha alma. A luz, outrora guia, desvanece-se como um sussurro esquecido, e o mundo torna-se um véu de sombras líquidas. Tento ascender, lutar contra o peso invisível que me prende — grilhões forjados em silêncios e memórias. Mas estou imóvel, suspensa entre o desejo e o abismo. Cada segundo estende-se como uma eternidade líquida, e os pensamentos, como pássaros feridos, começam a esvair-se.

Desço, desfaço-me, mergulho no ventre escuro do mar — um útero de mistérios e sensações que me invadem como um exército de emoções indomáveis. Algo se aproxima, não com violência, mas com a doçura de um abraço esquecido. E então, desperto. Estou na margem do mundo, o corpo entrelaçado com as ondas, como se o mar me tivesse amado e deixado ali, exausta e renascida.

Ergo-me, trôpega, embriagada de algo que não sei nomear. A ternura ainda dança sobre a minha pele como um perfume que se recusa a partir. O luar, cúmplice silencioso, chama-me com um feitiço antigo, e sinto-me puxada por uma força que não compreendo — uma selva adiante, viva, pulsante, sussurrando promessas.

Caminho, guiada por um delírio doce, até que o mundo se abre num abismo sem fim. E cedo. Atiro-me sem pensar, como quem se entrega a um beijo proibido. As sensações emergem, enfeitiçam, dominam. Um novo abraço envolve-me, feito de fogo e ternura. As veias ardem, o medo evapora. Entrego-me, inteira, ao abismo que me chama pelo nome.

Tua abismo, que me denominas enfeitiçada.

                                                                                             



segunda-feira, 12 de maio de 2025

Amor platônico


 

A amizade profunda, com suas complexidades e contradições, é uma jornada emocional que muitos enfrentam em silêncio.

Amo o impossível e continuo impassível, como um navio que desafia tempestades sem se desviar. Choro porque desejo, como um rio que transborda em busca do mar. Condeno-me por ensejo, como um prisioneiro que anseia pela liberdade. Ideias naufragadas por aspirações recatadas, como sonhos que se afogam em mares de incerteza.

Mantenho sentimentos por explorar em segredo por temores e receios, como um explorador que teme o desconhecido. Incertezas escrupulosas, ideias piedosas, a amizade profunda é viver com falso tónico, como uma melodia que nunca encontra sua harmonia. Impetuoso e penetrante de vivacidades cortante, lágrimas pelo desconhecido devido ao íntimo contido, como um vulcão que guarda sua lava.

Sem coragem de gritar o que me está a devorar, como um leão que ruge em silêncio. Sensações estranhas que me saem das entranhas, como raízes que se estendem no solo fértil da alma. Medo da rejeição de falar de coração de olhos cerrados vive-se amores cerrados, como um pássaro que teme abrir suas asas.

Amor platônico falso tónico sempre espiritual puro de infelicidade sem igual, como uma flor que nunca desabrocha. Desilusões sentidas, sempre escondidas, vividas nas sombras, sem deleite e sem prazer, como um sol que nunca nasce. De olhos cerrados vive-se amores vedados sem coragem de gritar o que me está a devorar, como um segredo que nunca é revelado. Lágrimas pelo desconhecido devido ao íntimo contido, amor o impossível e continuo impassível, como um guerreiro que luta sem esperança.




Inspiração


                                                                          Inspiração

Quando o sol se despede do horizonte, meu corpo se dissolve na loucura da noite. Sinto vertigens, como se estivesse escapando de mim mesma. Por que me deixaste assim, como se tudo pudesse ser esquecido? Minha alma explode em mil fragmentos, enquanto a solidão crava suas garras afiadas em meu ser.

A solidão é um deserto árido, onde cada passo ecoa na vastidão do vazio. É um oceano sem fim, onde me afogo em ondas de tristeza. É uma floresta sombria, onde os galhos secos sussurram segredos de saudade. Ó inspiração, estou perdida sem ti, pois a solidão me consome. Ilumina meu caminho, traz de volta meu espírito e deixa a tinta negra fluir do meu lápis. Permita-me escrever e reencontrar minha aura, que vaga pelo céu e domina meu corpo e mente. Deixa-me viver o impossível, mesmo que seja apenas nas páginas soltas do meu caderno.










sexta-feira, 9 de maio de 2025

Devaneio




                                                                     Devaneio

Sonhar é como um devaneio em silêncio, uma luz que brilha no escuro denso, iluminando uma mente adormecida, suspensa entre a realidade e a fantasia. É um momento unicamente íntimo, com um ritmo próprio e desconcertante, que desafia a seriedade com sua dissonância encantadora.

Ausente dos horizontes conhecidos, o sonho ilude os fracos e estremece os audazes, desfragmentando a realidade em cacos brilhantes de possibilidades infinitas.

                                                                                                      


Alma Perdida




Alma perdida

Tenho a alma perdida em pensamentos desconhecidos, pensamentos que se dispersam como folhas ao vento. Estou envolvida por sentimentos disformes e confusos, como se os parafusos da minha mente tivessem se soltado.

Não sei como lidar com esta situação. Não posso simplesmente apagar tudo como se fosse um quadro-negro. Nego-me a perder a noção e esquecer uma vida não vivida.

Preciso libertar-me desta prisão e deixar a emoção controlar e adormecer o pensamento. Este sentimento que me assola é tão forte quanto uma tempestade, arrasando e destruindo tudo em seu caminho, sem construir nada. A rejeição impede o cultivo de algo mágico e transcendental, como uma flor que não pode desabrochar.

Sofro porque nunca saberei o que poderia ter sido, e isso não se apaga, pois não está escrito a giz. Eu nada sou e nada sei sobre o que posso oferecer,  vacilar ou apenas magoar.

Deixa-me guardar tudo isso como uma emoção linda e viver no contemplativo, como um pintor que admira sua obra inacabada. Será que consigo? Fico triste e feliz ao mesmo tempo, não quero te perder, por isso não me afastes e não deixes de estar comigo.

Mil perdões por colocar tudo nestas condições. Oh, minha alma perdida, não te deixes ser vencida, pois sou eu que estou perdida por estas sensações. Algo despertou em mim, adormecido por muitos anos, como uma história antiga com mil anos.




                                                                                        



 








quinta-feira, 8 de maio de 2025

Lobo Solitário



Lobo Solitário

No profundo oceano azul-escuro da noite, ele desliza entre os trilhos da floresta como um fantasma silencioso. Busca o desconhecido, tentando decifrar o arcano que reside nas profundezas de sua alma. Sua mente, um labirinto complexo e misterioso, é um enigma que envolve seu andar majestoso e seu olhar, uma mistura de gelo e mel, ao mesmo tempo impiedoso e doce, sibilante como o vento noturno.

Sob o luar, ele uiva lamentos que reverberam por vales e montanhas, fragmentando sentimentos invisíveis como vidro quebrado. Além das escarpas, outro ser semelhante ouve a melodia arrepiante, uma sinfonia única de tom e ritmo, e ofegante, anseia encontrar-se com seu desejo indiscreto de saber quem será e o que trará.

Lobo solitário, a determinação do destino tudo nos pode conceder.                         



quarta-feira, 7 de maio de 2025

Pensamentos


                                                                           Pensamentos

Oiço o respirar dos meus pensamentos como ondas que, em sua dança eterna, invadem o mar e se entrelaçam com a terra, num abraço de ternura. Desesperam para permanecer, lutam e lutam para à terra retornar.

Sinto um vazio profundo, um mergulho nas profundezas dos pensamentos que me sufocam como um abismo sem fim.

Vejo a mágoa do dia, repleto de vida, e o desespero de um desejo ou sonho que anseia por se concretizar, como uma flor que luta para desabrochar.

Adormeço e espero, com o coração em suspenso, novamente acordar e ver tudo renascer, na esperança de que um dia a flor finalmente desabroche.


                                                                                          


Limites






                                                                               Limites

Ninguém se verdadeiramente se conhece, nem os seus próprios limites, pois é pura presunção. A cada batida do coração, cada segundo, algo em nós se transforma. Estamos em constante metamorfose. A dança silenciosa da transformação, onde o velho se dissolve e o novo emerge, revelando a beleza oculta da mudança.

O maior erro do homem é descobrir um diamante bruto e temer a beleza que pode revelar ao lapidá-lo

                                                              



Emoções


Emoções

Proibido emoções cálidas, angustias, fúteis, fantasiosas mórbidas e memórias inúteis. Sou uma chama indomável, imune a trivialidades. Não aprisiones o pensamento, deixa-o voar livre como um pássaro ao vento. As conexões são como laços de fogo, intensos, e poderosos, enquanto o resto se dissolve na insignificância. Às vezes devemos nos lançar cegamente ao abismo do desconhecido, pois o que futuro  reserva é um mistério que não cabe ao presente desvendar. Embarcar nesta jornada, onde cada instante é uma revelação e cada passo, uma nova emoção.




terça-feira, 6 de maio de 2025

Loucura


 

Loucura

Verdadeira loucura é viver aprisionado por tantos compromissos. Podes chamar-me de louca porque sou livre na minha mente, mas loucos são aqueles que passam a vida inteira sem seguir seus desejos. A vida é curta demais para não ser vivida intensamente, para não sentir cada momento, cada emoção. Que a liberdade seja nossa maior loucura e que nossos sonhos sejam sempre nossa realidade.  



Floresta de sombras

 

Floresta de sombras

Corro sem olhar para trás numa floresta negra, onde a luz do desfastio é um sonho distante. Meus pés doridos e descalços sentem cada pedra, cada galho, cada ferida, como se a própria terra estivesse conspirando contra mim. Arrepios percorrem minhas costas como setas envenenadas disparadas do inferno, cada uma trazendo uma nova onda de terror.

Corro como se minha vida dependesse da fuga da incerteza e do desconhecido que me persegue implacavelmente. Ao meu redor, nada faz sentido; a realidade e a ilusão se entrelaçam em um abraço mortal. Minhas veias gelam como teias ardentes, e estou esgotada, mas recuso-me a sucumbir às forças malignas que me cercam.

Subo colinas com mãos ensanguentadas, minha alma descalça e cheia de um desejo ardente de revigorar. Cada passo é uma batalha contra o desespero, cada respiração um grito silencioso de resistência.

Finalmente, desadormeço. Era um sonho ou realidade? Ainda não estou em mim, perdida entre os ecos de um pesadelo que se recusa a desaparecer.




Inquietudes



 Inquietudes 

Vida, sonhos e pesadelos entrelaçam-se como fios de um destino inescapável, dominando a caneta trêmula e feroz. Onde o ódio vagueia como um lobo solitário e o amor, como uma chama eterna, prepondera e se contém. Onde as lágrimas são rios contidos e a voz, um grito silencioso que ecoa na alma.

                                                                                              



The Guardian of Shadows

                                                              The Guardian of Shadows He is made of ink and silence. Each tattoo is a spell ...