Saudade insana
Sentir saudade do que nunca se
teve é como chorar por um sonho que não ousou nascer.
É nostalgia de um tempo que
jamais correu no relógio, um eco de passos que nunca pisaram o chão da realidade. É um sentimento feito de névoa e silêncio, uma tapeçaria bordada com fios de
desejo e ausência.
Essa saudade é um espelho partido
onde se refletem mil versões de um passado que nunca existiu —um passado
inventado pela alma faminta de sentido, de presença, de um toque que nunca
veio. É a esperança vestida de luto, é o coração escrevendo cartas para um
destino que nunca respondeu.
Há uma loucura doce nessa saudade insana —aquela que se
sente por vidas não vividas, por amores que só existiram no intervalo entre
dois suspiros.
É uma chama que arde sem ter sido acesa, um incêndio que consome sem deixar
cinzas.
A mente, cúmplice do coração,
recria momentos com a precisão de uma poetisa embriagada, e cada lembrança
inventada se torna mais real do que qualquer verdade.
É o desejo desesperado pelo retorno de algo que nunca partiu, o anseio por um
abraço que nunca se deu, por olhos que nunca se cruzaram.
Essa saudade pesa no corpo — vira
insônia, ansiedade, um cansaço que não se explica.
É o tempo parando para ouvir o lamento de uma ausência sem nome.
Não se vive para ser notado, mas para que a própria falta ecoe como um trovão
no silêncio dos outros.
A distância, essa escultora de
sentimentos, faz com as emoções o que o vento faz ao fogo: apaga as pequenas,
inflama as grandes. E assim seguimos, navegando sem bússola pelos mares da
obscuridade, até que as folhas da alma caiam, exaustas, no outono da esperança.
Saudade insana, nada posso te
oferecer senão o cansaço de existir em vão, de ter tocado apenas a sombra do
que poderia ter sido. Meus dedos entrelaçaram-se com a névoa, e no vazio encontrei a essência do abandono.
Ficarei só, como os veleiros
ancorados em portos esquecidos, esperando ventos que não virão.
Porque há saudades que não têm nome — apenas moram em nós, como tempestades que
nunca cessam.
